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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

Alberto Cuddel - Reclamações Matutinas





Reclamações matutinas

Acordas ao toque do irritante despertador
Reclamas da hora, do cansaço, do acordar
Reclamas, mas tens certamente empregador
Reclamas do pequeno-almoço a mastigar
Mas certamente tens ainda o que comer
E reclamas de tudo mesmo o sem saber
Que o que custa não é reclamar, mas viver!

És, como todos insatisfeito,
É isso homem é teu por direito,
Perseguimos uma outra vontade
Não sabendo ao certo o que de verdade,
Talvez uma utópica felicidade?

E tantos sem nada sobre o que reclamar,
Por nada terem a sonhar…

Reclamas, mas o que custa não é reclamar
O que nos custa a nós na nossa humanidade,
Não é reclamar, mas saber o que podemos fazer!

Alberto Cuddel
#LivrodeReclamacoes

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Poema a uma mãe


Poema a uma mãe…
 
Havia um porto
Tosto
Onde antes me atracava
 
Medo do mundo
Queda
No teu abraço me aninhava
 
Regaço por tantos chorado
Perda
Vida às vezes esquecida
 
O sol põe-se sem que o espere
Com tudo abraçar, a viver
Um Amo-te que ficou por dizer!
( mãe apenas tu…)
 
Alberto Cuddel®

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Juramento…


Juramento…
No tempo do nada,
Vi sem que te olhasse,
No tempo do tudo,
Vi sem que me apaixonasse,
Ganhei o teu tempo,
Sem que me amasse!

Depositei-me no amago da tua alma,
Entreguei-me, completo assim vivalma,
Osculei sorvendo o mel dos teus lábios,
Perscrutei o universo, li os alfarrábios,
Descobri amar em mim um outro eu,
Em mim encontrei um tu apenas meu!

Recolhi-me em mim, castrei-me, esperei,
Fiz-me em ti, sentido do celibato dado,
Nas juras gravadas, dadas, todo entreguei,
Selado, no ser, no coração, consumado!

Fielmente imune, ninfas e musas,
Rondam, revolvem as águas, naufrago?
Jamais, me deleitarei, sedutoras Nereidas,
Sedutoras irmãs de Tétis, não antes surdo,
Fechados que foram os olhos, antes mudo!

Elevo-me no sopro do sono, -olho-te
Recordando apenas em mim,
A parte de ti que em mim carrego!

Alberto Cuddel®





terça-feira, 13 de setembro de 2016

Encontremo-nos…




Encontremo-nos…

Num qualquer sítio
Longe, perto, ao luar
Em qualquer lugar,
Num qualquer jardim,
Numa tarde sem fim
Sob abóbada celeste
A norte, sul ou leste!

Encontremo-nos
Matemos a fome
Que nos consome
Juntemo-nos…
Hoje, amanhã
Ou até depois
Fiquemos assim
Apenas os dois!


Alberto Cuddel®

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Tudo o que ainda não escrevi - Tentações





Tentações

Sussurros perdidos,
Destinos desmanchados
Noite vaga, eu vago,
Solto amedrontado,
Floresta de aves mortas
Sem chave, fechadas portas,
Obscuro peso da verdade
Caio por terra, sinceridade!

Ruas curvas, olhares dizentes
Sorrisos amarelos, doentes
Sedução, com tudo o que vem
Que vai, tudo teve, nada tem!

Sai-me ao caminho,
Segredo, segredinho,
-Vai-te, bem sabes
Não caminho sozinho…

Soleiras gastas,
Conversas fiadas,
Desfiladas, aguçadas
Testadas, nefastas…
-vai-te não me adules
Cuida do lar, dos bules…
Vai-te de mim…
Eu, sou assim…

Na solidão do caminho,
Mesmo a passo, não faço,
Nunca em mim viajo sozinho
Levo no peito, no regaço,
O que escolhi com carinho!

Alberto Cuddel®
03 de abril 2015

In: Tudo o que ainda não escrevi - 8


quinta-feira, 8 de setembro de 2016

Tudo o que ainda não escrevi - Morte do dia,





Morte do dia,

Assim vão desfilando os minutos,
Num velório anunciado, morreu,
Mais um dia nasceu, cresceu,
E se finou, assim sem anuncio,
Sem honra de abertura de jornal,
São assaltos, assassinatos, roubos,
Impostos, corrupção, mas e o dia afinal?
Nada, nem um rodapé, assim esquecido,
Mas que dia incompreendido este,
Que morte tão desolada,
Morreu, não é lembrada,
Apenas a noite, essa sim acarinhada,
Apenas a criançada um pouco contrariada,
Por chegar a hora da cama, não acha piada!

Mas também a noite nascida,
Com tudo onde está prometida,
Irá crescer, cobrir com seu manto,
O amante mais incauto,
Cumprir promessas feitas,
Trazer lagrimas às desfeitas,
E aos primeiros raios,
Também ela morrerá,
Não já, não hoje, mas amanhã!

Alberto Cuddel®
In: Tudo o que ainda não escrevi - 7

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

Querer





Querer

Noite fingida, solidão,
Longínqua sedução,
Preludio do desejo,
Alma minha
Enlouquece,
No sussurro
Quente do beijo,
Deleite supremo
Teu corpo,
Entregue
Longo toque sedutor,
Fuga ao sofrimento,
Esquecida dor,
Carente,
Supremo tremor,
Fuga avassaladora,
Mãos inquietas,
Robusta pegada,
Sendo beijada,
Todo teu corpo,
Bem assanhada,
Assim te quero,
Assim te tomo,
Alma sedenta,
Supremo sentir,
Quero-te mulher,
Na minha,
Na nossa loucura,
Na noite de hoje,
Na noite futura!
Mulher oculta,
No desejo escondido,
Oculta alma,
Que assim se liberta,
No limbo do ser,
Por inteiro possuída!

Alberto Cuddel

sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Tudo o que ainda não escrevi - Soneto da Madrugada!





Soneto da madrugada!


Colinas nocturnas da melancolia,
Vagueiam saudosamente sós,
Arrancam do peito a homilia,
Rasantes pensamentos, coesos!

Ah, poder anunciado do ósculo,
Promessa perdida, escrita no ar,
Vontade de a ti, juntar no cenáculo,
Delirantemente, tua pele borboletar!

Do cansaço delirante candura,
Ato heróico delicada bravura,
Queda, louco seria cansado,

Dor coloreada da triste madrugada,
Arte infeliz, saudade assim sonhada
Dormente, sequiosamente amado!


Alberto Cuddel®
30/03/2016

In: tudo o que ainda não escrevi - 6

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Tudo o que ainda não escrevi - Cálice de Fel


Cálice de Fel

Não me reconheço nos teus sonhos
Asas da noite que o mar engole,
-como te atreves a sonhar-me?
Gota do nada, silêncio que te falava
Tentações vibrantes da sede incólume
Já mais, escorregarei na "Ínsula divina"
Cálice, atentas-me, contra divino amor!

Vai-te de mim, má sorte, regente da noite,
Ladeias melosamente o quintal adormecido,
Dormindo, luar que me mantem enfeitiçado,
Doce perfume, gerbérias desfolhadas…
-Nada podes, absolutamente nada,
Sou entregue, livremente…

Levanta-te Afrodite, condena-me,
Antes entregue aos leões do coliseu,
Que aos prazeres enganosos da tua carne,
Vai-te de mim, sob deusa do Amor,
Nada me aprazes nesta triste saudade!


Alberto Cuddel®
In: Tudo o que ainda não escrevo - 5

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Tudo o que ainda não escrevi - Madrugada capitular


Madrugada capitular

Sentia por antecipação
A madrugada despida
Orgulho caído do luar
Desvirginada manhã
Raio alucinadamente
Apaziguador do teu ser!

Fazes-me crer pela tua igreja,
Que te apresenta assim nua,
Despida nas doces preces,
Que ilusoriamente recrias,
Personagem descrente de ti!

Ai, madrugada oculta,
Que na luz revela-te,
Triste, dormente e fingida,
Louca e melancólica,
Vivendo apenas nos sonhos
Tresloucados amores da noite!

Alberto Cuddel®
In: Tudo o que ainda não escrevo - 4

domingo, 28 de agosto de 2016

Tudo o que ainda não escrevi - Verdes anos






Verdes anos,

Corres colina abaixo
Sob um doce tecto de algodão,
És pureza, subtileza juvenil
És flor, que perfuma o meu jardim!

No olhar,
Doce malicia de mulher,
Felina, matreira, segura,
Arrebatas em ti,
Corpo doce mel,
O vigor, o desejo,
Rebolando, na erva macia,
Onde deste em mim,
Origem à vida!

Alberto Cuddel®

In: Tudo o que ainda não escrevi - 3

sábado, 27 de agosto de 2016

Tudo o que ainda não escrevi - Futilidades





Futilidades

Na fútil margem do desejo
Amo-te
Não como se ama apenas
Amo-te em ti
Em mim,
Quero-te
Como o rio procura o mar,
Sonho imiscuir-me em ti
Na tua feminina salinidade,
Anseio raiar do sol,
Preencher-te no calor dos corpos,
Sou, existo no querer,
Não nas articulações literárias,
Mas no gemido do prazer
Na certa força, que é em nós
Movimento de vida,
Prazer e porta de saída,
Na liberdade de te amar,
Fundindo, aromas de rosas,
Entre odores almiscarados
Corpos em abandono, extenuados!

Alberto Cuddel®

In: Tudo o que ainda não escrevi - 2

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Tudo o que ainda não escrevi - Rir, é bom rir…





Rir, é bom rir…

Descubro todos os dias,
Que me posso rir,
Rir de mim próprio,
Rir, comigo mesmo,
Que é melhor rir que chorar,
Que podemos chorar de rir,
Que rimos dos medos,
Para encobrir segredos,
Que rimos por nada,
Que rimos de nada,
Que rimos por apenas ver rir,
Que sorrir não é mentir,
Que sorrir pode encobrir
Lágrimas que a alma decanta,
Mas rimos para que os outros
Não chorem connosco…

Então rio de mim,
Mesmo que em mim
As lágrimas contidas
Lubrifiquem apenas o olhar!

Alberto Cuddel®
27/03/2016
In: Tudo o que ainda não escrevi - 1


quinta-feira, 5 de maio de 2016

Tributo a Mário Quintana

Os poemas
 
Os poemas são pássaros que chegam
Não sabem de onde e pousam
No livro que lês
 
Quando fechas o livro, eles alçam voo
Como de um alçapão.
Eles não tem pouso
Nem porto
Alimentam-se um instante em cada par de mãos
E partem. E olhas, então essas mãos vazias,
No maravilhado espanto de saberes
Que o alimento deles já estava em ti…
 
Mário Quintana
 
Os poemas
 
Os poemas são ajuntamentos de letras
Não sabes de quem e aparecem
Assim publicados.
 
Quando abres a comunidade, voam as letras
Em direção ao olhar.
Não param
Juntam-se
Alimentam-se a cada comentário.
E partem, a ser novos, em mentes vazias
Na maravilha espantosa de saber
Que eles já falavam, estavam em ti….
 
Alberto Cuddel
 

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Tributo - Álvaro de Campos

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?) ”


Tabacaria – Álvaro de Campos (um dos heterónimos de Fernando Pessoa)

O vício!

Janela, janela essa fechada ao mundo,
No meu vicio, de me enclausurar em mim,
Aberta de vez em quando a matar um vício
Eu matar-me a mim! Lentamente,
Num fumo retumbante dissipado no ar,
Que me inunda a caixa torácica,
A rua, essa rua, a rua que separa janelas,
Essa abertas, ou fechadas,
Folhas secas que a atravessam
Empurradas pelo vento seco de agosto,
Num calor que o verão nos deixou,
Sem que o levasse a outras áridas paragens.


A torre, que do meu quarto perscruto no horizonte,
O toque das avé-marias,
Confronto o relógio, numa confrontação casual,
Maquinal talvez, no apressado movimento circular,
E o toque, memórias passadas, convite,
O convite aos crentes, que crêem,
Que se prostrem e orem, na reflexão do que são,
E eu? Quem sou aqui? Ninguém…


Ponte no horizonte, como qualquer outra ponte,
Que me atravessa para a outra margem
Sem que me leve a lugar nenhum…
Viajo, olhos postos no horizonte,
Vagos, vidrados, sem vida,
Mas parto, sem que tenha saído,
Viajo na mente, firmemente convencido
Que parti, sem realmente sair.
Da janela que abri há minha morte,
Para que um vício matasse,
Vejo também os prados do silêncio,
Local onde jazem os bons,
Onde repousam os que vos fazem falta,
Pois os maus nunca morrem…


Deixo lá fora, fora de ti, bem longe
Lezíria de palha seca, doirada
Sob um sol de fim de tarde
Que obliquamente te ilumina
Palha que queimo, neste fumo
Palha que tanto inquieta, nas matas, nos bosques
Nobres e voluntariosos homens da paz,
Que com o coração nas mãos
Se entregam pelo bem-estar dos outros,
Anónimos, sem rosto, os primeiros
Vítimas de desequilibrados seres humanos
Que para satisfação de um ego retorcido
Queimam, fazem arder, matam
E eu, aqui, inflamando com uma pedra o gaz,
Que inflama a triste e seca palha do tabaco!


Não fumo no quarto,
Respeito? Talvez, mas o cheiro esse incomoda
Incomoda-me o cheiro, nas vielas sujas,
Do mendigo descalço,
Do obreiro transpirado ao meu lado
Num comboio apinhado
Num qualquer regresso a casa.
Viajo, mente inquieta,
Sento-me de novo,
Em frente a ti, nesta negra cadeira,
Com um negro estofo!
Não há na escrivaninha papeis,
Nem se encontra gasta pelo tempo,
Apenas tu, negro computador,
Escrevo-te, insultas-me, reparando erros,
Pois os dedos não acompanham
A velocidade da viagem!


Os dedos, esse apêndice tão humano,
Dedos que mudaram o mundo,
Que inquietos dão, oferecem-se,
Dão-se, e que tanto roubam ao assinar
Um qualquer decreto de impostos,
Os meus dedos, que teimam
Em não me obedecer!
Um deles em particular,
O que a ti um dia ofereci,
Que te deixei marcar, para que todos soubessem
Que te pertenço, ou para a eu me lembrar,
Que me pertences, ou meramente
Saber que nos ligamos para a eternidade!


Aqui ao lado a janela, fechada,
Abra-o novamente, a querer matar
Um vicio que me mata,
Desgraça, o infortúnio, sem tabaco,
Saio apresado, pela rua deserta,
Cruzo a esquina, o sorte,
Ao fundo da rua, bem lá no fundo
A tabacaria, essa, está aberta!


Alberto Cuddel

Poema de tributo ao autor que mais me impulsiona a escrever!

http://escritanoface.blogspot.pt/
http://facebook.com/escritoassim
http://infinitamente-nosso.blogspot.pt/


Tributo - Ary dos Santos


Soneto de Mal Amar

 

Invento-te    recordo-te   distorço
a tua imagem mal e bem amada
sou apenas a forja em que me forço
a fazer das palavras tudo ou nada.
 

 A palavra desejo incendiada
 lambendo a trave mestra do teu corpo
 a palavra ciúme atormentada
 a provar-me que ainda não estou morto.
 

 E as coisas que eu não disse? Que não digo:
 Meu terraço de ausência    meu castigo
 meu pântano de rosas afogadas.
 

 Por ti me reconheço e contradigo
 chão das palavras mágoa joio e trigo
 apenas por ternura levedadas.

 

Ary dos Santos, in 'O Sangue das Palavras'

 // Consultar versos e eventuais rimas

 

 

Soneto do Mal (A)mar

 

Invento-me    recordo-me e torço
cores criadas a troco de um nada
apenas roda em que me oleio e forço
naufrago de uma vida mal amada

 
 mastro do desejo erguido no sonho
 sorvendo a brisa vazia do teu corpo
 a palavra obter-te onde a ponho
 salva-me de mim ainda não estou morto.

 
 Onde estive e me perdi?  não digo:
Privação das tuas formas   meu castigo
 Desejos e ansias por ti afloradas.

 De ti nem fama nem veredito
 Arrastado pela praia o meu grito
 Promessas pela aventura  levedas.
 
Alberto Cuddel®


terça-feira, 3 de maio de 2016

Tributo - António Gedeão


Poema do Homem Só

 

Sós,

Irremediavelmente sós,

Como um astro perdido que arrefece.

Todos passam por nós

E ninguém nos conhece.

 

Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.

Os astros nada explicam:

Arrefecem

 

Nesta envolvente solidão compacta,

Quer se grite ou não se grite,

Nenhum dar-se de outro se refracta,

Nenhum ser nós se transmite.

 

Quem sente o meu sentimento

Sou eu só, e mais ninguém.

Quem sofre o meu sofrimento

Sou eu só, e mais ninguém.

Quem estremece este meu estremecimento

Sou eu só, e mais ninguém.

 

Dão-se os lábios, dão-se os braços

Dão-se os olhos, dão-se os dedos,

Bocetas de mil segredos

Dão-se em pasmados compassos;

Dão-se as noites, e dão-se os dias,

Dão-se aflitivas esmolas,

Abrem-se e dão-se as corolas

Breves das carnes macias;

Dão-se os nervos, dá-se a vida,

Dá-se o sangue gota a gota,

Como uma braçada rota

Dá-se tudo e nada fica.

 

Mas este íntimo secreto

Que no silêncio concreto,

Este oferecer-se de dentro

Num esgotamento completo,

Este ser-se sem disfarce,

Virgem de mal e de bem,

Este dar-se, este entregar-se,

Descobrir-se, e desflorar-se,

É nosso de mais ninguém.

 

António Gedeão

 

Não sendo este um dos poemas mais conhecidos do autor, foi o escolhido por mim a reescrever no hoje, não sendo eu sozinho, reescrevo-o contigo…

 
Poema a um Homem Sozinho
 
Só,
Irremediavelmente só,
Como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por ti
E ninguém te conhece.
 
Os que passam,
Os que te olham de lado,
Os que ainda falam:
Sai daqui…
 
Essa solidão desnuda,
Quer se veja, ou se tape,
Quer se peça, se despeça,
Ninguém para, a conversar…
 
Quem te sente, homem doente?
Ninguém nem mesmo eu,
Quem te escuta, homem que fala?
Ninguém nem mesmo eu,
Quem te ajuda, quem te mente?
Ninguém nem mesmo eu…
 
Dão-se esmolas, são tesouros,
Dão-se sopas e cobertores,
Dão-se roupas, e comprimidos
Mas ninguém te tira as dores,
Dão-se gritos, envergonhados,
Sem abrigo, desabrigados,
Dá-se tudo e nada tens!
 
Mas esse teu íntimo secreto
Que no silêncio desesperas,
Sentado enquanto esperas
Num esgotamento completo,
Este ser-se sem disfarce,
Um homem sozinho desenlace,
É teu, só teu de mais ninguém.
 
Alberto Cuddel
 
 

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Reescrevendo os Poetas - Alexandre O'Neill

Amigo

Mal nos conhecemos
 Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
 De boca em boca,
 Um olhar bem limpo,
 Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
 Um coração pronto a pulsar
 Na nossa mão!


«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
 Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!


«Amigo» é o erro corrigido,
 Não o erro perseguido, explorado,
 É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
 Um trabalho sem fim,
 Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

http://www.citador.pt/poemas/a/alexandre-oneill

Virtual amigo…
 
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um aceitar
Um “clik”, um teclar,
Um dar-se a conhecer
É abandonar, falsas amostragens,
É abrir um coração,
Oferecer uma palavra!
 
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
 Os que não aceitam solicitações?)
«Amigo» é o contrário de conhecido!
 
 «Amigo» é o erro visto,
 E do nada, comunicado, corrigido,
 É a virtualidade partilhada, praticada.
«Amigo» é acabar com uma solidão,
Mesmo que esteja sozinho em casa!
«Amigo» é uma grande tarefa,
É estar disponível on-line,
É ajudar sem estar lá,
É não perder tempo,
É tornar um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
 
Alberto Cuddel



quinta-feira, 28 de abril de 2016

Reescrevendo os Poetas - Alvaro de Campos

Todas as Cartas de Amor são Ridículas
 
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
 
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Alvaro de Campos

 

Uma ridícula carta
Lisboa 01:15 07/08/2015
 
Cara amada musa inspiradora do meu ser,
 
Se me perco na certeza de poder cair no ridículo, que é escrever o amor que me move, pelo esvoaçar dos teus cabelos pela manhã, talvez seja pelo ridículo de (calado) nada dizer. Amada, quão raras vezes, se abriram meus lábios, por ridículo ser o som obliquo dum Amo-te, fora de tempo, seria assim ridículo ser dito. Prefiro o ridículo beijo ao acordar, despenteada, com os teus olhos de um ligeiro cinza azulado, (qual praia pouco profunda de um paraíso tropical), semi cerrados, e um eterno silêncio, por não gostares, de proferir as doces palavras, que a tua voz emana.
Ridículo sou, por decidir escrever por um amor crescente que me move a cada decisão, por desejar continuamente contornar teu corpo, com a aspereza masculina do meu toque. Será que ridículas são apenas as palavras? Que juntas formam cartas, ridículas deste amor que me inunda? Ridículo, sou, pelo tempo que passa, que passou, sem que ridículo deixasse de ser, escrevendo-te, e ridiculamente descrevendo e desenhado o amor que sinto. Mas se são ridículas as cartas, talvez o ridículo de mim, seja, continuar a ridiculamente amar-te, como a memoria que se perde no tempo do primeiro dia em que te ridiculamente te amei!
 
 
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
 
Alberto Cuddel
 
 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Reescrevendo os Poetas - José Regio

Soneto de amor

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.


Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.


E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.


Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus, não digas nada...
Deixa a vida exprimir-se sem disfarce!


José Régio

Amor, é este o soneto…

Não me queiras, apenas por palavras,
Expressões sem alma, recebe-me em teu seio
O olhar se feche, onde o sonho lavra
Recebe-me por inteiro e sem receio.


Nos teus lábios, meus, se encontrem
Línguas, que gladiam sabores frutados
Que teu corpo vibre enquanto estiverem
Nossos membros nos dois entrelaçados.


Duas bocas uma língua, -Gemido
Nos beijos, olhar comprometido
Sangue, suor, sabor, odor, unidos.


Depois, olhar que me penetra, amada!
Funde-os aos meus, apenas calada,
Deixa a vida, ser, um tudo, no nada!


Alberto Cuddel