quarta-feira, 4 de maio de 2016

Tributo - Ary dos Santos


Soneto de Mal Amar

 

Invento-te    recordo-te   distorço
a tua imagem mal e bem amada
sou apenas a forja em que me forço
a fazer das palavras tudo ou nada.
 

 A palavra desejo incendiada
 lambendo a trave mestra do teu corpo
 a palavra ciúme atormentada
 a provar-me que ainda não estou morto.
 

 E as coisas que eu não disse? Que não digo:
 Meu terraço de ausência    meu castigo
 meu pântano de rosas afogadas.
 

 Por ti me reconheço e contradigo
 chão das palavras mágoa joio e trigo
 apenas por ternura levedadas.

 

Ary dos Santos, in 'O Sangue das Palavras'

 // Consultar versos e eventuais rimas

 

 

Soneto do Mal (A)mar

 

Invento-me    recordo-me e torço
cores criadas a troco de um nada
apenas roda em que me oleio e forço
naufrago de uma vida mal amada

 
 mastro do desejo erguido no sonho
 sorvendo a brisa vazia do teu corpo
 a palavra obter-te onde a ponho
 salva-me de mim ainda não estou morto.

 
 Onde estive e me perdi?  não digo:
Privação das tuas formas   meu castigo
 Desejos e ansias por ti afloradas.

 De ti nem fama nem veredito
 Arrastado pela praia o meu grito
 Promessas pela aventura  levedas.
 
Alberto Cuddel®