terça-feira, 3 de maio de 2016

Tributo - António Gedeão


Poema do Homem Só

 

Sós,

Irremediavelmente sós,

Como um astro perdido que arrefece.

Todos passam por nós

E ninguém nos conhece.

 

Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.

Os astros nada explicam:

Arrefecem

 

Nesta envolvente solidão compacta,

Quer se grite ou não se grite,

Nenhum dar-se de outro se refracta,

Nenhum ser nós se transmite.

 

Quem sente o meu sentimento

Sou eu só, e mais ninguém.

Quem sofre o meu sofrimento

Sou eu só, e mais ninguém.

Quem estremece este meu estremecimento

Sou eu só, e mais ninguém.

 

Dão-se os lábios, dão-se os braços

Dão-se os olhos, dão-se os dedos,

Bocetas de mil segredos

Dão-se em pasmados compassos;

Dão-se as noites, e dão-se os dias,

Dão-se aflitivas esmolas,

Abrem-se e dão-se as corolas

Breves das carnes macias;

Dão-se os nervos, dá-se a vida,

Dá-se o sangue gota a gota,

Como uma braçada rota

Dá-se tudo e nada fica.

 

Mas este íntimo secreto

Que no silêncio concreto,

Este oferecer-se de dentro

Num esgotamento completo,

Este ser-se sem disfarce,

Virgem de mal e de bem,

Este dar-se, este entregar-se,

Descobrir-se, e desflorar-se,

É nosso de mais ninguém.

 

António Gedeão

 

Não sendo este um dos poemas mais conhecidos do autor, foi o escolhido por mim a reescrever no hoje, não sendo eu sozinho, reescrevo-o contigo…

 
Poema a um Homem Sozinho
 
Só,
Irremediavelmente só,
Como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por ti
E ninguém te conhece.
 
Os que passam,
Os que te olham de lado,
Os que ainda falam:
Sai daqui…
 
Essa solidão desnuda,
Quer se veja, ou se tape,
Quer se peça, se despeça,
Ninguém para, a conversar…
 
Quem te sente, homem doente?
Ninguém nem mesmo eu,
Quem te escuta, homem que fala?
Ninguém nem mesmo eu,
Quem te ajuda, quem te mente?
Ninguém nem mesmo eu…
 
Dão-se esmolas, são tesouros,
Dão-se sopas e cobertores,
Dão-se roupas, e comprimidos
Mas ninguém te tira as dores,
Dão-se gritos, envergonhados,
Sem abrigo, desabrigados,
Dá-se tudo e nada tens!
 
Mas esse teu íntimo secreto
Que no silêncio desesperas,
Sentado enquanto esperas
Num esgotamento completo,
Este ser-se sem disfarce,
Um homem sozinho desenlace,
É teu, só teu de mais ninguém.
 
Alberto Cuddel