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quinta-feira, 5 de maio de 2016

Tributo a Mário Quintana

Os poemas
 
Os poemas são pássaros que chegam
Não sabem de onde e pousam
No livro que lês
 
Quando fechas o livro, eles alçam voo
Como de um alçapão.
Eles não tem pouso
Nem porto
Alimentam-se um instante em cada par de mãos
E partem. E olhas, então essas mãos vazias,
No maravilhado espanto de saberes
Que o alimento deles já estava em ti…
 
Mário Quintana
 
Os poemas
 
Os poemas são ajuntamentos de letras
Não sabes de quem e aparecem
Assim publicados.
 
Quando abres a comunidade, voam as letras
Em direção ao olhar.
Não param
Juntam-se
Alimentam-se a cada comentário.
E partem, a ser novos, em mentes vazias
Na maravilha espantosa de saber
Que eles já falavam, estavam em ti….
 
Alberto Cuddel
 

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Tributo - Álvaro de Campos

“Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?) ”


Tabacaria – Álvaro de Campos (um dos heterónimos de Fernando Pessoa)

O vício!

Janela, janela essa fechada ao mundo,
No meu vicio, de me enclausurar em mim,
Aberta de vez em quando a matar um vício
Eu matar-me a mim! Lentamente,
Num fumo retumbante dissipado no ar,
Que me inunda a caixa torácica,
A rua, essa rua, a rua que separa janelas,
Essa abertas, ou fechadas,
Folhas secas que a atravessam
Empurradas pelo vento seco de agosto,
Num calor que o verão nos deixou,
Sem que o levasse a outras áridas paragens.


A torre, que do meu quarto perscruto no horizonte,
O toque das avé-marias,
Confronto o relógio, numa confrontação casual,
Maquinal talvez, no apressado movimento circular,
E o toque, memórias passadas, convite,
O convite aos crentes, que crêem,
Que se prostrem e orem, na reflexão do que são,
E eu? Quem sou aqui? Ninguém…


Ponte no horizonte, como qualquer outra ponte,
Que me atravessa para a outra margem
Sem que me leve a lugar nenhum…
Viajo, olhos postos no horizonte,
Vagos, vidrados, sem vida,
Mas parto, sem que tenha saído,
Viajo na mente, firmemente convencido
Que parti, sem realmente sair.
Da janela que abri há minha morte,
Para que um vício matasse,
Vejo também os prados do silêncio,
Local onde jazem os bons,
Onde repousam os que vos fazem falta,
Pois os maus nunca morrem…


Deixo lá fora, fora de ti, bem longe
Lezíria de palha seca, doirada
Sob um sol de fim de tarde
Que obliquamente te ilumina
Palha que queimo, neste fumo
Palha que tanto inquieta, nas matas, nos bosques
Nobres e voluntariosos homens da paz,
Que com o coração nas mãos
Se entregam pelo bem-estar dos outros,
Anónimos, sem rosto, os primeiros
Vítimas de desequilibrados seres humanos
Que para satisfação de um ego retorcido
Queimam, fazem arder, matam
E eu, aqui, inflamando com uma pedra o gaz,
Que inflama a triste e seca palha do tabaco!


Não fumo no quarto,
Respeito? Talvez, mas o cheiro esse incomoda
Incomoda-me o cheiro, nas vielas sujas,
Do mendigo descalço,
Do obreiro transpirado ao meu lado
Num comboio apinhado
Num qualquer regresso a casa.
Viajo, mente inquieta,
Sento-me de novo,
Em frente a ti, nesta negra cadeira,
Com um negro estofo!
Não há na escrivaninha papeis,
Nem se encontra gasta pelo tempo,
Apenas tu, negro computador,
Escrevo-te, insultas-me, reparando erros,
Pois os dedos não acompanham
A velocidade da viagem!


Os dedos, esse apêndice tão humano,
Dedos que mudaram o mundo,
Que inquietos dão, oferecem-se,
Dão-se, e que tanto roubam ao assinar
Um qualquer decreto de impostos,
Os meus dedos, que teimam
Em não me obedecer!
Um deles em particular,
O que a ti um dia ofereci,
Que te deixei marcar, para que todos soubessem
Que te pertenço, ou para a eu me lembrar,
Que me pertences, ou meramente
Saber que nos ligamos para a eternidade!


Aqui ao lado a janela, fechada,
Abra-o novamente, a querer matar
Um vicio que me mata,
Desgraça, o infortúnio, sem tabaco,
Saio apresado, pela rua deserta,
Cruzo a esquina, o sorte,
Ao fundo da rua, bem lá no fundo
A tabacaria, essa, está aberta!


Alberto Cuddel

Poema de tributo ao autor que mais me impulsiona a escrever!

http://escritanoface.blogspot.pt/
http://facebook.com/escritoassim
http://infinitamente-nosso.blogspot.pt/


Tributo - Ary dos Santos


Soneto de Mal Amar

 

Invento-te    recordo-te   distorço
a tua imagem mal e bem amada
sou apenas a forja em que me forço
a fazer das palavras tudo ou nada.
 

 A palavra desejo incendiada
 lambendo a trave mestra do teu corpo
 a palavra ciúme atormentada
 a provar-me que ainda não estou morto.
 

 E as coisas que eu não disse? Que não digo:
 Meu terraço de ausência    meu castigo
 meu pântano de rosas afogadas.
 

 Por ti me reconheço e contradigo
 chão das palavras mágoa joio e trigo
 apenas por ternura levedadas.

 

Ary dos Santos, in 'O Sangue das Palavras'

 // Consultar versos e eventuais rimas

 

 

Soneto do Mal (A)mar

 

Invento-me    recordo-me e torço
cores criadas a troco de um nada
apenas roda em que me oleio e forço
naufrago de uma vida mal amada

 
 mastro do desejo erguido no sonho
 sorvendo a brisa vazia do teu corpo
 a palavra obter-te onde a ponho
 salva-me de mim ainda não estou morto.

 
 Onde estive e me perdi?  não digo:
Privação das tuas formas   meu castigo
 Desejos e ansias por ti afloradas.

 De ti nem fama nem veredito
 Arrastado pela praia o meu grito
 Promessas pela aventura  levedas.
 
Alberto Cuddel®


terça-feira, 3 de maio de 2016

Tributo - António Gedeão


Poema do Homem Só

 

Sós,

Irremediavelmente sós,

Como um astro perdido que arrefece.

Todos passam por nós

E ninguém nos conhece.

 

Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.

Os astros nada explicam:

Arrefecem

 

Nesta envolvente solidão compacta,

Quer se grite ou não se grite,

Nenhum dar-se de outro se refracta,

Nenhum ser nós se transmite.

 

Quem sente o meu sentimento

Sou eu só, e mais ninguém.

Quem sofre o meu sofrimento

Sou eu só, e mais ninguém.

Quem estremece este meu estremecimento

Sou eu só, e mais ninguém.

 

Dão-se os lábios, dão-se os braços

Dão-se os olhos, dão-se os dedos,

Bocetas de mil segredos

Dão-se em pasmados compassos;

Dão-se as noites, e dão-se os dias,

Dão-se aflitivas esmolas,

Abrem-se e dão-se as corolas

Breves das carnes macias;

Dão-se os nervos, dá-se a vida,

Dá-se o sangue gota a gota,

Como uma braçada rota

Dá-se tudo e nada fica.

 

Mas este íntimo secreto

Que no silêncio concreto,

Este oferecer-se de dentro

Num esgotamento completo,

Este ser-se sem disfarce,

Virgem de mal e de bem,

Este dar-se, este entregar-se,

Descobrir-se, e desflorar-se,

É nosso de mais ninguém.

 

António Gedeão

 

Não sendo este um dos poemas mais conhecidos do autor, foi o escolhido por mim a reescrever no hoje, não sendo eu sozinho, reescrevo-o contigo…

 
Poema a um Homem Sozinho
 
Só,
Irremediavelmente só,
Como um astro perdido que arrefece.
Todos passam por ti
E ninguém te conhece.
 
Os que passam,
Os que te olham de lado,
Os que ainda falam:
Sai daqui…
 
Essa solidão desnuda,
Quer se veja, ou se tape,
Quer se peça, se despeça,
Ninguém para, a conversar…
 
Quem te sente, homem doente?
Ninguém nem mesmo eu,
Quem te escuta, homem que fala?
Ninguém nem mesmo eu,
Quem te ajuda, quem te mente?
Ninguém nem mesmo eu…
 
Dão-se esmolas, são tesouros,
Dão-se sopas e cobertores,
Dão-se roupas, e comprimidos
Mas ninguém te tira as dores,
Dão-se gritos, envergonhados,
Sem abrigo, desabrigados,
Dá-se tudo e nada tens!
 
Mas esse teu íntimo secreto
Que no silêncio desesperas,
Sentado enquanto esperas
Num esgotamento completo,
Este ser-se sem disfarce,
Um homem sozinho desenlace,
É teu, só teu de mais ninguém.
 
Alberto Cuddel
 
 

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Reescrevendo os Poetas - Alexandre O'Neill

Amigo

Mal nos conhecemos
 Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
 De boca em boca,
 Um olhar bem limpo,
 Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
 Um coração pronto a pulsar
 Na nossa mão!


«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
 Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!


«Amigo» é o erro corrigido,
 Não o erro perseguido, explorado,
 É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!
«Amigo» é uma grande tarefa,
 Um trabalho sem fim,
 Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

http://www.citador.pt/poemas/a/alexandre-oneill

Virtual amigo…
 
Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».
«Amigo» é um aceitar
Um “clik”, um teclar,
Um dar-se a conhecer
É abandonar, falsas amostragens,
É abrir um coração,
Oferecer uma palavra!
 
«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
 Os que não aceitam solicitações?)
«Amigo» é o contrário de conhecido!
 
 «Amigo» é o erro visto,
 E do nada, comunicado, corrigido,
 É a virtualidade partilhada, praticada.
«Amigo» é acabar com uma solidão,
Mesmo que esteja sozinho em casa!
«Amigo» é uma grande tarefa,
É estar disponível on-line,
É ajudar sem estar lá,
É não perder tempo,
É tornar um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!
 
Alberto Cuddel



quinta-feira, 28 de abril de 2016

Reescrevendo os Poetas - Alvaro de Campos

Todas as Cartas de Amor são Ridículas
 
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
 
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Alvaro de Campos

 

Uma ridícula carta
Lisboa 01:15 07/08/2015
 
Cara amada musa inspiradora do meu ser,
 
Se me perco na certeza de poder cair no ridículo, que é escrever o amor que me move, pelo esvoaçar dos teus cabelos pela manhã, talvez seja pelo ridículo de (calado) nada dizer. Amada, quão raras vezes, se abriram meus lábios, por ridículo ser o som obliquo dum Amo-te, fora de tempo, seria assim ridículo ser dito. Prefiro o ridículo beijo ao acordar, despenteada, com os teus olhos de um ligeiro cinza azulado, (qual praia pouco profunda de um paraíso tropical), semi cerrados, e um eterno silêncio, por não gostares, de proferir as doces palavras, que a tua voz emana.
Ridículo sou, por decidir escrever por um amor crescente que me move a cada decisão, por desejar continuamente contornar teu corpo, com a aspereza masculina do meu toque. Será que ridículas são apenas as palavras? Que juntas formam cartas, ridículas deste amor que me inunda? Ridículo, sou, pelo tempo que passa, que passou, sem que ridículo deixasse de ser, escrevendo-te, e ridiculamente descrevendo e desenhado o amor que sinto. Mas se são ridículas as cartas, talvez o ridículo de mim, seja, continuar a ridiculamente amar-te, como a memoria que se perde no tempo do primeiro dia em que te ridiculamente te amei!
 
 
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
 
Alberto Cuddel
 
 

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Reescrevendo os Poetas - José Regio

Soneto de amor

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.


Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.


E em duas bocas uma língua..., - unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.


Depois... - abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus, não digas nada...
Deixa a vida exprimir-se sem disfarce!


José Régio

Amor, é este o soneto…

Não me queiras, apenas por palavras,
Expressões sem alma, recebe-me em teu seio
O olhar se feche, onde o sonho lavra
Recebe-me por inteiro e sem receio.


Nos teus lábios, meus, se encontrem
Línguas, que gladiam sabores frutados
Que teu corpo vibre enquanto estiverem
Nossos membros nos dois entrelaçados.


Duas bocas uma língua, -Gemido
Nos beijos, olhar comprometido
Sangue, suor, sabor, odor, unidos.


Depois, olhar que me penetra, amada!
Funde-os aos meus, apenas calada,
Deixa a vida, ser, um tudo, no nada!


Alberto Cuddel



terça-feira, 26 de abril de 2016

Reescrevendo os Poetas - Florbela Espanca

Horas Rubras

Sou chama e neve e branca e mist'riosa...
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!


Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

Horas quentes

Momentos profundos das horas caladas,
Feitos de beijos ternos, doces, carentes
Das alvas manhas, desejos ardentes,
Onde há mulheres vendo agonizadas

Gritos ,balidos, do pastor gargalhadas...
 Estrelas ofuscadas, por lábios luzentes,
 Sol que se espraia pelos lábios dormentes
 Memorias do nada, longas estradas…

Teus lábios, entrada, ao desejo contido
Teus braços aperto, teu peito sentido
Brotam palavras de ti as mais puras...

 És querer no desejo mist'riosa...
 E sou, fome em ti voluptuosa,
 De mim  Poeta, o beijo que procuras!

Alberto Cuddel

Tributo a Florbela Espanca


segunda-feira, 25 de abril de 2016

Reescrevendo os poetas - Miguel Torga

  Quase um Poema de Amor
 
Há muito tempo já que não escrevo um poema
 De amor.
 E é o que eu sei fazer com mais delicadeza!
 A nossa natureza
 Lusitana
 Tem essa humana
 Graça
 Feiticeira
 De tornar de cristal
 A mais sentimental
 E baça
 Bebedeira.
 
Miguel Torga, in 'Diário V'

Um quase poema, de Amor!

Há muito pouco tempo que não te escrevo,
Um poema de Amor.
E se o faço, na delicadeza com que o decido,
É por natureza, latino,
Impetuoso nessa humana
Desgraça, de no cristal de teu corpo,
Tinir, o sentimento
Que me embriaga.


Seja eu fruto do tempo, que passa
Ou apenas tu que me desejas, assim tomado
Pelo desejo no templo do passado
Que me mantem em silêncio,
Coração que salta sem pudor,
-Há muito pouco tempo que não escrevia um quase poema,
De Amor.


Alberto Cuddel

Poema de tributo, reescrevendo Miguel Torga!



sexta-feira, 22 de abril de 2016

Rescrevendo os poetas - Ricardo Reis (Fernando Pessoa)

 


Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio.

Sossegadamente fitemos o seu curso e aprendamos
Que a vida passa, e não estamos de mãos enlaçadas.
(Enlacemos as mãos.)

Ricardo Reis, in "Odes"
Heterónimo de Fernando Pessoa


Recorda comigo Irene, vê o rio passar!

Demos as mãos, realizemos, o fim a que nos levaram,
Os passos, decisões inalteráveis que um dia demos,
Seguem bem longe na foz, as palavras que buscas,
      Confirmadas por Deus!

Seguimos como corrente descendente lado a lado,
Sem que cansados estejamos, nas correntes do prazer,
A vida segue, sedenta de cobranças, no nada,
      Na vida que temos.

Seguimos, nos amores, confrontos, seduções,
Guerras, paz, longe, perto, juntos, afastados,
Mas seguimos sempre, na mesma corrente,
      Rio que corre até à foz.

Olha a natureza, animais divertidos, astutos,
Nos longos rituais de escolha, sedução,
Onde nada importa, tudo se resume num ato,
      Amemos com nossos corpos!

Se ao menos um dia me recordares, sem sombra,
Na imagem terna, inocência de uma criança,
Sorriso nos lábios, um brilho no olhar,
      Calor das mãos enlaçadas!

E se antes de o barqueiro do rio me passar,
Eu de ti me recordar, nada sofrerei ao me lembrar,
De ti comigo sentada a ver o rio passar,
      De mãos enlaçadas a olhar!

Alberto Cuddel

Poema de tributo a um dos heterónimos do autor que mais me impulsiona a escrever!