quinta-feira, 28 de abril de 2016

Reescrevendo os Poetas - Alvaro de Campos

Todas as Cartas de Amor são Ridículas
 
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
 
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Alvaro de Campos

 

Uma ridícula carta
Lisboa 01:15 07/08/2015
 
Cara amada musa inspiradora do meu ser,
 
Se me perco na certeza de poder cair no ridículo, que é escrever o amor que me move, pelo esvoaçar dos teus cabelos pela manhã, talvez seja pelo ridículo de (calado) nada dizer. Amada, quão raras vezes, se abriram meus lábios, por ridículo ser o som obliquo dum Amo-te, fora de tempo, seria assim ridículo ser dito. Prefiro o ridículo beijo ao acordar, despenteada, com os teus olhos de um ligeiro cinza azulado, (qual praia pouco profunda de um paraíso tropical), semi cerrados, e um eterno silêncio, por não gostares, de proferir as doces palavras, que a tua voz emana.
Ridículo sou, por decidir escrever por um amor crescente que me move a cada decisão, por desejar continuamente contornar teu corpo, com a aspereza masculina do meu toque. Será que ridículas são apenas as palavras? Que juntas formam cartas, ridículas deste amor que me inunda? Ridículo, sou, pelo tempo que passa, que passou, sem que ridículo deixasse de ser, escrevendo-te, e ridiculamente descrevendo e desenhado o amor que sinto. Mas se são ridículas as cartas, talvez o ridículo de mim, seja, continuar a ridiculamente amar-te, como a memoria que se perde no tempo do primeiro dia em que te ridiculamente te amei!
 
 
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
 
Alberto Cuddel