Mostrando postagens com marcador Antologia Depressiva. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Antologia Depressiva. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Sírio de Andrade - Ponte



Rejo-me pelos sons de passos largos
Rejo-me pelo som das gotas de água
Pelo som dos travões do autocarro
Pela sirene dos bombeiros, da polícia
Pelos pregões da varina, do ardina
Pela buzina do táxi, os passos deles
Dos apressados sem rosto, sem vida
Corrida cega, sem visão periférica!

Rejo-me pelos ruídos do mundo
Rejo-me pelos sons do teto,
Deste lar, tão meu, tão de todos
Desta ponte que todos os dias cruzas
Ignorando que existe alguém vivendo
Apenas assim, só, marginalizado,
Debaixo dos teus apressados pés!

Sírio de Andrade®

In: Antologia Depressiva

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Sírio de Andrade - Corrida ao trabalho…

 
descem e sobem as escadas
apressados, corridos, rostos frios,
inertes, descontentes,
desumanamente fieis,
económico poder,
que os faz mover,
perdem, perdem-se,
perde-se a humana vida a viver!

Olhos que não veem
Mãos que não agem
orelhas que não ouvem,
fixos na chegada,
perdem, toda a humana
doce, singela, alegre, bela,
humana corrida
viver- viver apenas a vida!

Sírio de Andrade®
In: Antologia Depressiva
 

 

domingo, 8 de novembro de 2015

Solitário Acordar


Solitário acordar!
Perco-me, onde me encontro
Ignóbil vontade de um acordar solitário
Nada, em nada, nunca preparado
Solidão imposta, 
Sobreposta pela mera sobrevivência
A subserviência laboral
Arrasta teu corpo para fora do meu
Fico assim cansado no descanso
De estar só, na companhia
Do sentir decidido
De te amar fora de mim!

Sírio de Andrade®
In: Antologia depressiva

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Desfado!...



No fado a saudade,
Canto negro sofrido,
Tempo vivido do passado,
Gravado, gemido, chorado,
Alma lusa a ocidente,
Viagem negra pela gente,
Na crença de amor,
Onde vais? Arde em ciúme,
Na viela, outro queixume,
Mãe que chora a desgraça,
Duma filha devassa
Um pai morto no mar,
Saudade que corre no rosto,
Salgada lagrima,
No longo luar,
DE um final de Agosto….
 
Sírio de Andrade®
In: Antologia depressiva
 
 

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Sírio de Andrade - Eterno é o dia-a-dia...


Eterno é o dia-a-dia...
Dia, tarde, noite,
O amor é isso,
Um tempo sucessivo,
Continuamente interrompido,
Por um tudo ou nada pensado,
Desviado do propósito da vida,
Um trabalho, uma noticia,
E o amor, posto de lado,
Dobrado, amarrotado como revista,
Tudo passa, tudo finda,
Fica o amor, esquecido,
Agora lembrado,
Pegado, beijado,
Abraçado, revivido,
No fim apenas ele,
É eterno dia-a-dia!
 
Sírio de Andrade®
In: Antologia depressiva


 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Negro despertar

 
Do sonho que desperto
Pesadelo da realidade
Queda ansiosa em mim
Dura consciência de ti
És e não existes no ser
Visão deturpada do querer
Asas quebradas não voam
Não se elevam, caem esquecidas
Agrilhoada em ti, desprezas-me
Como um ser disforme
Horrivelmente usável
Descartável, esquecível
Desprezivelmente violável
Desperto usado sem nome
Apenas uma noite, palavras
Foi bom, apenas foi
Passado, o presente não existe
O futuro, esse já foi esquecido!
Desperto e caio,
Na realidade
Que eu não sou
Não existo
Por não me saberes
Existir!
 
Sírio Andrade®
In: Antologia depressiva

domingo, 11 de outubro de 2015

Escondo-me **


Escondo-me intrépido por detrás do teu rosto,
Por detrás da imagem refletida do teu rosto,
Olho-te nos olhos, como estranho,
Desconheço o que pensas, apesar do eu
Eu, que me olho, que me vejo, ser o tu
Que me olha, que me lê, que me escuta,
Escondo-me por detrás das linhas da escrita,
Nas vírgulas fora de sitio, no assentos
Nos adjetivos, que adjetivam o que sinto
Sem realmente, querer sentir o que mostro
Não mostro o que realmente sinto,
Pois eu sim, finjo escondido,
O que escondido tenho em mim,
Os ocultos desejos traídos,
Reprimidos neste anafado corpo onde sonho
Explorar prazeres sem tempo, sem pudores
Sem repressões ou reclusões,
Onde me podes olhar nos olhos
E leres-me em ti, na transmissão
Despudorada do físico sentir,
Mesmo no sonho por ti sonhado
Escondo-me por detrás do reflexo
Do teu rosto no espelho!...
 
Sírio de Andrade®
In: Antologia Depressiva