terça-feira, 29 de setembro de 2015

J. Mendes

J. Mendes
Hoje dei de falar de mim

Tinha apenas quatro anos quando aquele vendedor de livros ia a nossa porta, minha mãe não era grande leitora, mas gostava de bonitas enciclopédias enfeitando a estante da nossa sala. Certa vez ele mostrou a ela uma coleção infantil e eu logo me interessei. Ela acabou por adquirir os livros para que se reunissem aos outros que enfeitavam a prateleira. Esses livros eram diferentes dos outros, eram grandes, e em quatro, cada um de uma cor, rosa, azul, amarelo e verde, todos em tons pastéis.

Eu costumava passar minhas férias na casa de uma tia e lá minha madrinha me contava histórias antes de dormir. Quando voltei para casa pedi para que minha mãe lesse as histórias dos livros que havia comprado. Ela o fazia todas as noites. Pela manhã eu ficava intrigada, admirava as figuras e não conseguia entender aquelas letras.

Na época em que eu aprenderia a ler na escola, tive um acidente, aos cinco anos fui mordida por um cão da raça pastor alemão na perna esquerda e não podia andar para ir ao colégio, além das vacinas diárias antirrábicas que eu precisava tomar.

Claro que para uma criança, os dias ficam cinza, mas não me lembro disso, apenas de que minha mãe pediu alguns livros para minhas primas professoras e começou a me ensinar a ler.

Aos cinco anos eu já havia aprendido a ler e a escrever, claro, li e reli todos os contos daqueles livros infantis. Uma das coleções enciclopédicas era um dicionário divido em três volumes, daí peguei o hábito de abrir os dicionários em qualquer parte apenas para descobrir novas palavras, é claro que hoje, trinta e três anos depois não me lembro da maioria dessas palavras, eu costumava escolher as mais complicadas.

Aos oito anos notei que a terceira enciclopédia era um único volume sobre geografia e eu ficava fascinada com os mapas. A quarta eram quatro volumes sobre educação sexual para a família. Li os quatro volumes e não precisei contar com aquela conversa que os pais precisam ter com os filhos e os meus nunca tiveram comigo. Certa vez, meu padastro ia andando pela sala e se virou para minha mãe: "Você já reparou no que a Jacqueline está lendo?", com um ar reprovador. Minha mãe deu uma olhada e respondeu dando de ombros: "Ué, ela tem que aprender!". E ambos se calaram, para minha sorte em terminar minha leitura que me foi  muito educativa.

Meu primeiro livro foi o menino azul depois dos contos infantis e logo em seguida o inesquecível Jane Eyre.

Quando cheguei ao ensino fundamental peguei o péssimo hábito de ir parar com certa frequência na diretoria, raramente por bons motivos. A punição do diretor era mandar alunos rebeldes para a biblioteca. Mal sabia ele que estava me mandando ao paraíso, me tirando da sala e mandando ler, fato que não lhe passou despercebido logo de cara e com isso passou a me mandar copiar o que tinha nos livros, outra paixão minha, escrever no meu diário e cadernos de poesias. Bem, acabei ficando com pena do diretor e os dias na biblioteca me deixaram longe de encrencas. O que era castigo virou uma prazer e teve grande mudança em meu comportamento. Não que eu não lesse, mas passar aquelas horas lendo naquele lugar tranquilo e cheio de opções me transmitiram uma calma que eu não possuía.

Cinéfila e ouvinte assídua de rádio, em um programa desses que tocam aquelas músicas que nos faz sentir saudades até do que não existe, o locutor mencionou a tradução de "Vincent" de Don McLean e logo em seguida mencionou que devido a forte depressão o pintor decapou a própria orelha e dera a amada como presente, daí o auto-retrato em que ele aparece com um pano envolta do rosto. Achei a história muito comovente e ficando fã do autor comecei a matar as aulas de Técnicas agrícolas para ficar na biblioteca pesquisando sobre a vida de Vincent Van Gogh. Tenho amor por pinturas e desenhos, sendo até hoje Vincent e Monet meus prediletos.

Aos catorze anos cismei que algumas histórias das quais lia deviam terminar de forma diferente, eu lia para entrar em um mundo de personagens e tudo deveria estar em uma determinada ordem, quando o livro terminava, algumas vezes eu me decepcionava e pensava em um fim diferente, mas o que incentivou mesmo a escrita foi observar as pessoas ao meu redor, eu imaginava situações e pessoas totalmente diferente no lugar de tudo. Nisso escrevi a mão meu primeiro livro de noventa e seis páginas. Falava de um amor de dois melhores amigos pela mesma mulher que amava apenas um.
Meus leitores foram minhas amigas. Nunca publiquei uma obra a não ser na internet.

Muitos anos me mantiveram presa aos estudos e trabalho, com o tempo o trabalho tomou o lugar dos estudos, mas os filmes e livros sempre formaram minha trilha.

Há mais dez anos voltei a escrever, fui interrompida por forte depressão. Atualmente, tenho o tão desejado tempo para escrever um de meus livros em mente, mas um forte bloqueio fez com que eu me fechasse. Através da poesia consegui abrir uma janela para a luz entrar, então consegui voltar as prosas e crônicas. O que antes me era mais fácil, o bloqueio tornou quase impossível, quase!

Ou seja, ironia? Passo a vida inteira trabalhando para poder ter a oportunidade de trabalhar no que mais amo, escrever. E quando essa oportunidade aparece um bruta bloqueio trava todos os meus livros, em mentes, desfiz de alguns rascunhos. Mas a mente os guarda.

Para minha saúde, aceitei um repouso e dei com as portas da poesia, estou com com minhas postagens que se resumem a poesias, sonetos, poemas, prosas, contos e crônicas.

Agora me choquei com o bloqueio e comecei a escrever um de meus livros. Ainda mantenho o hábito de escrevê-los, primeiro, na máquina de escrever. É um livro com três contos e conta com aproximadamente trezentas páginas. São três estórias independentes mas tem como foco a mente humana.
Hoje dei de falar de mim.


J.Mendes