sábado, 28 de novembro de 2015

Conto Negro

boa tarde, caros amigos aqui vai um dos contos do CONTOS INFERNAIS DE CHARLES NODIER, apreciem este grande autor que é Charles Nodier ressuscitado como S.NODIER
JOVEM RAPARIGA FLAMENGA ESTRANGULADA PELO DIABO

CONTO NEGRO

A seguinte aventura aconteceu a 27 de Maio de 1582. – Havia em Antuérpia uma jovem e bela rapariga, gentil, rica e abastada - o que a tornava vaidosa, orgulhosa - que procurava agradar todos os dias, com as vestes sumptuosas, uma infinidade de homens elegantes que a cortejavam.

Esta rapariga foi convidada, segundo o costume, para o casamento de um amigo do Pai. Como não queria faltar e estava satisfeita por aparecer numa tal festa, para superar em beleza e em boa graça às outras damas e donzelas, preparou as mais lindas vestes, colocou rouge na face, à maneira das Italianas, e como as flamengas gostam sobretudo de estar bem vestidas, mandou fazer quatro ou cinco golas, cuja alna de pano custava nove escudos. Depois de estarem prontas, mandou vir uma hábil engomadeira, e ordenou-lhe para engomar com cuidado duas destas golas, para o dia do casamento, prometendo-lhe pelo trabalho vinte e quatro soldos.

A engomadeira fez o seu melhor, mas as golas não estavam do agrado da rapariga, que mandou procurar outra engomadeira, a quem deu as golas e o toucado para engomar, prometendo-lhe um escudo caso tudo estivesse do seu agrado. Esta segunda engomadeira fez tudo o que estava ao seu alcance para fazer bem, mas não conseguiu contentar a rapariga que, irritada e furiosa, rasgou e atirou pelo quarto as golas e o toucado, blasfemando o nome de

Deus, e afirmando que gostaria que o Diabo a levasse do que ir assim ao casamento.

A pobre dama ainda não tinha acabado estas palavras, quando o diabo, que estava à espreita, tendo tomado a aparência de um dos seus mais caros apaixonados, se apresentou a ela, com uma gola admiravelmente engomada e ajustada com distinta elegância. A rapariga, enganada e pensando que estava a falar com um dos seus queridos, disse-lhe gentilmente: "Meu amigo, quem vos colocou a gola? Era assim que eu queria ". O espírito malvado respondeu que ele próprio a colocara, e ao mesmo tempo retirou-a do pescoço, colocou alegremente no da rapariga, que estava contentíssima por estar tão bem enfeitada. Depois, tendo abraçado a coitadinha pelo meio do corpo, como para a beijar, o malvado demónio soltou um grito horrível, torceu-lhe miseravelmente o pescoço, e deixou-a sem vida no chão.

Este grito foi tão assustador que o pai da jovem e todos que estavam em casa ouviram-no e tiveram o pressentimento de que alguma infelicidade se passava. Apressaram-se a subir ao quarto, onde encontraram a jovem morta, tendo o pescoço e a cara negra e mortificada. A boca estava de tal maneira lívida e toda desfigurada que, com o susto, nem se atreviam a aproximar-se dela. O pai e a mãe, após terem dado durante muito tempo gritos e soluços lamentáveis, mandaram enterrar a filha que de seguida foi colocada num caixão, e, para evitar a desonra que receavam, deram a entender que a sua filha morrera subitamente de apoplexia. Mas uma tal aventura não devia ser escondida. Pelo contrário, devia ser mostrada

a cada um para que servisse de exemplo. Como o pai ordenara dispor tudo para o enterro da filha, viu que quatro homens fortes e possantes não conseguiam levantar nem mexer o caixão onde estava este triste corpo. Mandaram vir dois carregadores robustos que se juntaram aos quatro primeiros, mas foi em vão, porque o caixão era tão pesado que parecia pregado ao chão. Os assistentes assustados pediram para abrir o caixão, o que fizeram de imediato. E qual não foi o espanto quando viram que, ó prodígio assustador!, só havia um gato negro no caixão, que se escapou precipitadamente e desapareceu sem se saber para onde. O caixão ficou vazio; a tristeza da rapariga mundana foi descoberta, e a igreja não lhe fez a Missa dos Defuntos.