terça-feira, 22 de setembro de 2015

O Xale

Eles costumavam se encontrar diariamente. 
Ele, um homem gordo, calvo de meia idade, tinha feições europeias e usava um cavanhaque. 
Ela, uma mulher miúda, com cabelos compridos e castanhos que costumava esconder o corpo já pequeno dentro de um xale cor de areia; o medo era seu calcanhar de aquiles e aquele amigo juntamente com aquele xale transpassavam para ela uma espécie de escudo para o mundo.
Não costumavam dar nomes a esses encontros, apenas nada tinham de amantes. 
O xale a protegia dos olhos do mundo e ele a protegia com as respostas mais simples para os problemas mais complexos que ela lhe apresentava.
Durante dois anos se viam alguns minutos e conversavam sobre tudo, ele a escutava e depois ela fazia o mesmo.
Com o tempo ela se tornou uma mulher mais confiante, onde primeiro precisou exercitar todas as formas de relaxamento mental os quais ele havia lhe indicado. Ela não mais se importava se não era uma mulher deslumbrante fisicamente, e sequer por isso valia menos que as outras, ele lhe disse que se ela não aceitasse isto como fato para ela, ninguém mais o faria.
A paciência foi algo conquistado com muito apoio, ela se dizia desgasta, ambos se encaravam e falavam sobre isto até que ela descobrisse que ainda haviam forças em sua dispensa, as vezes, um descanso mental antes de algumas coisas lhe caíram bem.
O mais difícil, foi e até hoje acredito que esteja sendo o  medo que ela sente em sentir medo.
Mas foi adentrando, através da ajuda amiga, em sua mente que as coisas aconteciam, ou não, independente dela temê-las ou não. E temer  tudo só tornava a aparte agradável da vida inexistente. 
Talvez ela esteja começando a entender que as pessoas são o que são, assim como disse ele.
Talvez esteja começando a sacar que a precaução e o medo são de fatos úteis, quando não usados como escudo para encarar tudo que a vida poe a frente.
Ele lhe falou que o exterior é apenas um cartão de visitar, é no interior que se faz morada.
Ela assimilou isso de boa forma.
Sempre aquilo, a rotina, o abrir da porta, dar de cara com ele, conversarem e a porta se fechava dando fim a conversa.
Na última:
Ele: Acha mesmo que pode se livrar dele?
Ela: Sim, posso, e farei isso como um ser humano que sou.
Ele: Como chegou a essa conclusão?
Ela: Quero deixar de apenas existir e também voltar a viver.
Ele: Isso ficou claro desde o momento em que você mencionou a radical decisão.
Ela: Por que me dei conta que ele além de feio é inútil.
Ele: Com essa resposta, creio que cessam com mérito nossos incontáveis diálogos?
Ela: De fato.
Fechou mais uma vez a porta do armário do banheiro, só que desta vez viu seu rosto magro mais com vida. Abriu e fechou novamente e ao continuar se vendo sem a careca e o cavanhaque foi a procura do xale para se desfazer dele.



J.Mendes