quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Literatura Marginal

Fonte da imagem: Google.


A literatura considerada por muitos como marginal vem conquistando cada vez mais seu espaço entre aqueles hoje considerados acadêmicos.
E a prova disso é o crescente número de escritores e poetas periféricos que surgem dia-a-dia em nossos subúrbios ocupando um espaço antes vago e esquecido pelas autoridades pseudoculturais. E o mais importante de tudo isso é que a arte produzida na forma escrita não deixa nada a desejar. Talvez a grande diferença entre um escritor periférico e um já renomado no meio literocultural seja a vivência dos fatos. Parece que o escritor periférico vive ou viveu o que escreve. Muitas vezes sua narração leva o leitor a relembrar fatos vividos por ele quando criança ou ainda mesmo quando adulto, pois parece que a periferia não estipula diferença entre os que nela habitam. O simples fato de sentir grandes necessidades sociais, cujo desprezo se faz presente a qualquer momento, faz com que o artista despeje uma quantidade esmagadora de verdades cruas em seus versos ou em suas prosas. Está bem claro que não somente a literatura vem conquistando seu espaço no meio artístico, pois temos também o teatro com sua ironia e deboche causadores de grandes conquistas devidos a uma imensa coragem despertada nos corações de um povo intitulado suburbano. Temos também, como se fossem facadas na arrogância política, as pinceladas marcantes dos artistas plásticos sendo que muitos para se tornarem o que são hoje tiveram que, até por opção, abandonar o hábito da pichação.
M uitos escritores periféricos sabendo ser uma ilusão sobreviver da arte seja ela representada, escrita ou pintada tem como ofício um trabalho formal ou informal, sendo que para poderem editar suas obras muitos deles recorrem ao mais simples e conceituado meio de exibição escrita, o famosíssimo FANZINE, onde se é possível publicar um grande número de texto por um preço quase simbólico e até mesmo de uma forma gratuita participando apenas como colunista ou um simples colaborador.
Parece que a literatura marginal recusa-se a deixar tal alcunha. Até porque muitos leitores se recusam a entrar mar adentro com suspeitas de não apreciarem muito o que poderão encontrar.

15/09/2007
Paulinho Dhi Andrade



Amigos, o relato abaixo fala de um poeta morador de rua que encantava a Cidade onde moro, São Miguel Paulista, Zona Leste de São Paulo. Seu nome  Raimundo Arruda Sobrinho. Ele dizia que o local, calçada, onde morava era um Facebook, onde as pessoas pegavam poemas que ele escrevia e vice-versa... 

Leiam a matéria

As histórias de pessoas comuns, anônimas, são às vezes mais fascinantes do que aquelas de personalidades famosas. É a história de vida de cada um que o humaniza, lhe confere uma identidade. E quanto menos auto-complacentes são suas histórias, mais essencialmente humanos tornam-se os seres.
Ao ver alguém que vive nas ruas nas grandes cidades com olhar vazio e perdido, parecendo ter como única meta a próxima refeição e um lugar para dormir, penso o que teria levado essa pessoa até ali. Vicíos? Decepções? Abandono? Como será perder tudo, viver à margem? Ficar invisível quando as pessoas evitam te olhar, como se você fosse um espelho e eu não gostasse do que vejo? Despertar apenas algum sentimento de piedade ou repulsa, ou tão somente a indiferença? Se você desaparecer ninguém dará por sua falta. Haverá ainda algum espaço para sonhar? Se entorpecer para esquecer. Dizem que na verdade a única coisa que não se pode tirar de alguém não é o conhecimento e sim a paixão. Lembrando que a paixão tanto pode ser o amor quanto o ódio, as duas faces da mesma moeda. A raiva como força motriz para manter a mente alerta e criativa e resistir à tentação da auto-piedade que nos paralisa e nos torna apáticos. Se não quiser então perecer, há que ter altas doses de um ou de outro para sobreviver, porque viver é fácil para nós que estamos aqui do outro lado.

Raimundo Arruda Sobrinho era morador de rua em São Paulo desde 1979 e desde 96 no mesmo local, está hoje com 76 anos e vivia envolto em sacos de plástico preto que também usava como vestimenta. Ele escrevia poesias e vivia, em suas próprias palavras, no que ele chamava de “ilha”, em uma ilha mental com seus escritos dentro de uma ilha de miséria entre tantas outras nas grandes cidades, e lá se refugiava. Raimundo devia ser movido pela paixão e ninguém poderia demovê-lo de tal empreitada.
Em um de seus poemas ele escreveu: “higiene material, higiene mental. Aqui não sei qual é a mais difícil de praticar.” Ele tem razão, a impossibilidade da higiene material vai minando a dignidade e a “sujeira” aqui como metáfora, porque há sujeiras devidamente maquiadas, vai aos poucos envolvendo a alma. O mais difícil deve ser mesmo manter a mente limpa e lúcida em meio à todo tipo de sujidades.



Quem passasse pelo canteiro central da Av.Pedroso de Morais em São Paulo poderia vê-lo em sua “ilha” escrevendo versos em pedaços de papel, isto despertava a curiosidade e a simpatia de algumas pessoas como Shalla Monteiro, uma moradora da região a quem ele entregou um de seus versos, e que resolveu criar no Facebook uma fanpage para ele. Em 2011, um de seus quatro irmãos, que vive em Goiânia, encontrou por acaso na internet sua página na rede social. Uma demonstração de que esta ferramenta virtual também serve para fins mais nobres. Em 2012, após recusar o convite para ir morar com a família, ele foi removido da rua por uma equipe da prefeitura de São Paulo para o Centro de Atenção Psicossocial que abriga pacientes psiquiátricos graves para tratamento, e continuava até então a escrever. Cabe a pergunta se ele teria mesmo alguma doença mental a ser tratada ou pelo contrário, muita lucidez.
Dizem que sempre que lhe perguntavam se ele tinha família, ele respondia que não. Queria viver sozinho em seu próprio mundo e não aceitou ir morar com seus familiares alegando que não queria dar trabalho. Raimundo nasceu em Piacá, norte de Goiás, hoje Tocantins, mas vive em São Paulo desde 1961, onde chegou a trabalhar como jardineiro e vendedor de livros, e mesmo depois de ir morar nas ruas não deixou sua paixão pelas letras. Seu pseudônimo para seus livros, escritos em recortes de sulfite e papelão que ele chama de mini-páginas, é O Condicionado. É um título sugestivo, “condicionado” deveria ser aquele que caminha, respira e se alimenta como se esses atos fossem involuntários, em uma espécie de espasmo. Caminha vazio sem emoções feito um zumbi, não mais sente e nem pensa. Não é o caso de Raimundo, o poeta.



Conforme informações na página da UOL consta que em 2013 ele finalmente aceitou morar com seus parentes em Goiânia.