sexta-feira, 6 de novembro de 2015

Entrevista - Marcelo Nocelli



O Diário dos Escritores entrevista o escritor Marcelo Nocelli.
















Diário - Nome, pseudônimo, data de nascimento e cidade natal.
Marcelo - Marcelo Nocelli, nascido em janeiro de 1973, em São Paulo – SP.

Diário - Como e quando surgiu o interesse pela literatura?
Marcelo - Muito cedo. Desde criança, antes de aprender a ler, minha mãe já lia pra nós em casa. Acho que isso foi fundamental. Depois os gibis; turma da Mônica. Ainda antes de aprender a ler, olhava os quadrinhos e inventava as falas. E assim por diante, livros infantis, coleção vaga-lume... 
  
Diário - Como encara a era digital, acredita que o livro impresso tem seus dias contados?
Marcelo - Não sei se o livro impresso está com seus dias contados, mas a tendência é ir diminuindo. Eu ainda prefiro o livro impresso. E acredito que os da minha geração também. Os mais jovens, de 1990 pra cá, já cresceram (nasceram) na era digital, e pra eles é normal. Acredito que, enquanto, hoje temos livros impressos que também saem em versão digital, num futuro não muito distante, os livros serão digitais e alguns sairão em versão impressa. Algo como acontece hoje com o vinil.

Diário - O que acha das editoras que estão supostamente abrindo as portas para os novos escritores, visionárias ou aproveitadoras da situação econômica brasileira?
Marcelo - Aproveitadora não. Eu sou editor de uma pequena editora. Acho maravilho isso. Porque a maioria dos autores estreantes não tem muitas chances nas grandes editoras. São apostas que, quando bem-feitas, são ótimas (oportunidades) para ambos; autores / editoras. Crescem e aparecem juntos.

Diário - Como vê a educação pública no Brasil?
Marcelo - A educação pública, fora as universidades: estaduais e federais, é vergonhosa. O ensino básico já foi bem melhor, mas ainda funciona mais ou menos. Agora, quando entramos no fundamental I e II e ensino médio, aí a coisa é crítica. Terrível. Vergonhosa mesmo. E me parece que os governos não estão preocupados com isso e não fazem nada para melhorar, pelo contrário. Além das péssimas grades de ensino, condições escolares, material didático, metodologias e todo o sistema, as péssimas condições de trabalho e salário dos professores também contribui para o desanimo total da nossa educação. Não adianta programas sociais sem uma boa educação. Vamos continuar formando os patrões nas escolas particulares, e os empregados, cada vez mais ignorantes, nas públicas...    

Diário - Fale um pouco sobre sua caminhada para poder publicar o primeiro livro, quais as dificuldades e glórias?
Marcelo - Comecei a escrever muito cedo. No meu aniversário de doze anos ganhei, da minha mãe, uma coleção com 15 livros do Sítio do Pica Pau Amarelo, do Monteiro Lobato. Como não gostei muito dos finais dos contos, reescrevi todos a minha maneira. Depois disso, na adolescência comecei a escrever poemas que dedicava as meninas da classe. Logo em seguida, pequenos contos. Foi na época em que descobri Rubem Fonseca e fiquei impressionado com os contos e com o que se podia falar na literatura: tudo. Logo depois veio o curso técnico de eletrônica e a faculdade de tecnologia. Nessa época só lia. Lia muito. Então, quando terminei o curso, comecei a trabalhar como técnico numa gráfica que só fazia livros. Me encantava poder ler os livros enquanto eram fabricados, antes mesmo de chegarem nas livrarias. Foi quando resolvi arriscar escrever um romance. Ficou na gaveta durante anos. Em 2004 tive a oportunidade de fazer um curso na Alemanha, na matriz da empresa onde trabalhava. Fiquei três meses lá. E durante as noites, no hotel, retomei a escrita deste romance. (Talvez pela falta do que fazer). Quando voltei, mostrei para algumas pessoas que trabalhavam comigo. E meu chefe me indicou uma editora, cliente da gráfica. Posso dizer que tive sorte. Em 2007, “O Espúrio” meu primeiro livro, foi publicado. Em 2009 publiquei o segundo, “O corifeu assassino”, pela mesma editora. Em 2010 abandonei o emprego e me tornei consultor técnico, trabalhando como profissional autônomo. E, finalmente, puder cursar a faculdade de Letras que tanto queria. Em 2013, com um colega da turma de letras, abrimos a Editora Reformatório, por onde publiquei meu terceiro livro (o primeiro de contos) “Reminiscências”. Em 2014, “O Espúrio” foi traduzido e publicado na Alemanha, e “O corifeu assassino” traduzido e publicado na Itália.        

Diário - Fale um pouco a respeito sobre divulgações de obras, dificuldades, facilidades, meios de se conseguir divulgar um livro e etc...
Marcelo - Acho que a internet mudou tudo nesse sentido. Hoje o próprio autor pode fazer a divulgação e falar direto com os leitores pelas redes sociais. Também há diversos blogs e sites que abrem esse espaço. Acho que o maior problema é que, com a educação tão ruim, cada vez mais, diminui o número de leitores. Também existe a difícil batalha da concorrência com os “booms literários” que já chegam vendidos, com campanhas de divulgação milionárias e o alto número de livros publicados, só no Brasil são 5.000 todos os anos. Não temos leitores para tudo isso...

Diário - Qual foi o primeiro livro que leu?
Marcelo - Fora os gibis, o primeiro mesmo foram os livros da coleção do “Sítio do Pica Pau Amarelo”. Depois a coleção vaga-lume, li todos. 

Diário - Qual o escritor favorito?
Marcelo - Cyro dos Anjos.

Diário - O que acha das guerras no Oriente Médio, acredita haver uma solução de paz?
Marcelo - O Oriente Médio, desde a antiguidade, sempre viveu em conflito. Depois das I e II Guerras Mundiais, a coisa piorou ainda mais. Porque se antes, a maior parte das brigas era por religião ou demarcações de terra, depois das guerras, as mudanças, trazidas de fora para dentro pioraram ainda mais a situação, inclusive levando também, armamentos de maior poder de destruição. Agora, além da religião e disputa de fronteiras, ainda há rivalidades e interesses econômicos e políticos. Sinceramente, não vejo muitas possibilidades de solução. A guerra já faz parte da cultura deles. Mas, como não entendo do assunto, espero que eu esteja enganado.

Diário - Com qual livro se presentearia hoje?
Marcelo - Com o box da coleção completa de Machado de Assis. Um sonho. Mas é muito caro.

Diário - Vê alguma solução para os moradores de rua?
Marcelo - Infelizmente, não. Vejo possibilidade e programas que podem tentar diminuir essa situação. Mas solucionar e zerar de vez, não. Enquanto vivenciarmos esse capitalismo predatório, não vejo solução. Mas, assim como no caso da guerra no Oriente Médio, espero, sinceramente, estar enganado mais uma vez.

Diário - Acredita que há desemprego no país?
Marcelo - É visível. Nesse momento, passamos por mais uma crise, e isso sempre gera maior número de desempregados. Algumas empresas passam realmente por dificuldades. Outras se aproveitam. Sempre houve e sempre haverá desemprego. Por vezes, em proporções maiores, em outras ocasiões, menores. O período de transição tecnológica que atravessamos também contribui. Algumas profissões acabaram. É o caso do montador de fotolito gráfico, por exemplo. Não existe mais. Em compensação hoje existem vários profissionais ligados à área da computação gráfica que antes não existia.  

Diário - O que acha dos movimentos culturais, em principal os Saraus?
Marcelo - Gosto muito dos saraus. Eu mesmo apresentei um durante cinco anos. O Sarau da Camarilha. Além da divulgação dos autores, algo que gosto muito nos saraus é a possibilidade de conhecer os artistas, firmar novas parcerias e amizades. Também me impressiona o fato de cada sarau ter sua cara própria. Se você vai ao EITA Sarau, por exemplo, tem uma cara. O Sopa de Letrinhas, outra. E ambos acontecem, atualmente, no mesmo lugar: no Julinho Clube. Isso também é um fato bacana. Apesar das propostas serem as mesmas, o público muda, os artistas mudam e você reconhece em cada um, uma particularidade. Isso também me motivou a conhecer diferentes saraus por São Paulo. Além de tudo isso, o sarau mantém aquele espirito e beleza da poesia declamada que emociona. 

Diário - Além da literatura, tem outro ofício? Qual a importância dele?
Marcelo - Sou técnico gráfico. E continuo exercendo a profissão. É o que garante o sustento da minha família E vez ou outra, ainda financia algumas loucuras literárias.

Diário - Com poucas linhas, nos apresente o Marcelo Nocelli.
Marcelo - Um cara emotivo. Que tenta ser melhor a cada dia. Um apaixonado por livros. Não só no livro como “produto final”, mas por todo o universo que envolve a criação de um livro. Desde a escrita, passando pela produção, até a leitura.