domingo, 11 de outubro de 2015

Nininha

      Ieda e Dinorah andavam cansadas... Que Nininha mandasse para o raio que o parta, aquele seu delírio! Uma trabalheira danada passando “óleo de peroba” naqueles trastes adquiridos com tanto suor e nunca haviam visto tantas cadeiras sujas e arranhadas naquela casa. O piso de cimento vermelho, então... É certo que estava todo trincado, já precisando ser refeito, mas aonde iriam parar com tanta dor nas costas, num sobe- e- desce para passar aquela cera fedida e pastosa acrescida de “xadrez” encarnado para dar mais vida àquela cor já esmaecida, um vai-e-vem incessante de escovão com palha de aço, pra nada? -Deus queria pobreza, não sujeira-! Nininha que se mandasse ou se internasse!- O que se via eram arranhões e mais arranhões do arrasta-cadeiras de Nininha, com essa sua nova mania! -Sumam com essa doida!- gritavam as duas. O que seria da vida delas, quando o pai pudesse, com suas parcas economias juntas ao longo de três anos, fazer a aquisição de um sonhado aparelho de tv?... Nininha seria internada de vez num hospício lá em Aracaju, de onde nunca deveria ter saído. -Agora Nininha havia extrapolado! chegara ao auge da sua loucura-Diziam entre si- Qual nada pensava eu lá dentro de mim: As meninas é que são intransigentes e impacientes... Vivem a implicar com a minha Nininha... Se era loucura, era uma loucura suave. Essa mania dela não  atrapalhava ninguém a não ser o seu Rivaldávio, que nunca mais conseguira ouvir com tranquilidade a sua “Voz do Brasil”. No mais estava tudo certo. Nininha era boa e alegrava os meus dias de criança  pobre do interior ,sem bonecas e sem sonhos...
     Todo esse palavrório quer chegar ao ponto de que Nininha, de uns dias para cá, isto é, desde que seu Rivaldávio comprara um aparelho de rádio para ouvir música sertaneja acordando a vizinhança todas as madrugadas-sob protestos dos invejosos que ainda não haviam podido comprar e para alegria das moças que passavam o dia a ouvir músicas românticas que embalavam seus mais recônditos sonhos-, que a bendita Nininha jurava que os radialistas moravam dentro do rádio.   Foi Nininha quem encheu de fantasia a minha infância... Os delírios de Nininha faziam o meu deleite. Na inocência dos meus verdes anos, embarcava com ela naquela viagem que nos levava ao mundo encantado do "tudo possível", mundo para o qual Nininha havia carimbado meu passaporte, mundo onde só nós duas tínhamos o direito de adentrar e fazer dele o que quiséssemos. Ali Nininha realizava sonhos os mais mirabolantes... Inclusive conversar com os homenzinhos do rádio, aquela caixinha mágica onde moravam, segundo ela e depois segundo a minha imaginação, aqueles homens bons e muito bem educados, de fala pausada e voz gravemente doce e docemente grave... Assim acreditei, até que meus pais se aliaram ao tempo para me roubarem a inocência, colocando-me numa escola, aonde aos dez anos, vim saber de fato como funcionava o rádio, perdendo assim a entrada no mundo mágico de Nininha, cuja chave só eu e ela possuíamos. Longas eram as estradas desse mundo que povoava a cabeça de Nininha e curta a paciência dos que a rodeavam.
     Nininha...  Doce lembrança da minha infância. Sim. Porque Nininha foi doçura e meiguice imprescindíveis na vida de qualquer criança. Franzina, tipo mignon, contava já seus cinquenta anos, quando eu mal desabrochava do meu primeiro quinquênio... Não despertava em mim o mesmo terror que os loucos da cidade.  Pois para mim, ela nunca fora, nem jamais seria louca. Aquilo que chamavam loucura me fascinava, pois o que para eles era perda total da razão, para mim era pura fantasia... Nininha muitas vezes ia lá pro fundo do quintal e sob os pés da laranjeira em flor, nos contava com toda a paciência e calma que lhe eram peculiares, a mim e às crianças da vizinhança, histórias de príncipes valentes salvando suas amadas de dragões e o mais forte deles se chamava Valentim... Valentim era o mais aguerrido dos guerreiros. Havia lutado até a morte pela sua amada. Mais tarde eu viria saber de quem se tratava a única princesa amada do tal guerreiro valente. Absorta nessas histórias, muitas vezes nem escutávamos o apito da chaminé da serraria avisando da chegada dos nossos pais, que nos queriam ver banhados e de prontidão para depormos sobre as travessuras do dia.
      Passei a saber da existência dessa maravilhosa criatura, quando chegou de mala e cuia na cidadezinha onde eu nasci, uma família de retirantes Nordestinos... A rua entrou em polvorosa... Duas novas amigas para minhas irmãs mais velhas, um casal de amigos para os meus pais e Nininha para mim. Unicamente para mim. Segundo dona Branca confidenciara à minha mãe, Nininha havia sido uma boa babá para as crianças e uma espécie de "faz tudo" naquela casa lá da rua dos ausentes em Aracaju. Por muitos anos cuidara com desvelo e carinho daquelas suas duas joinhas e os olhos se lhe enchiam d’água quando falava sobre a tragédia que se abatera sobre ela e que a fizera perder de vez o juízo. Quando Nininha encontrou o primeiro amor e pensou em se casar, dona Branca entrou em desespero e fez a família entrar em polvorosa. O que seriam deles sem Nininha naquela casa. Foi então que aconteceu a razão da dita “loucura” de Nininha... O amor da sua vida, seu noivo Valentim, cujo nome ela nunca esqueceu, foi assassinado num bordel frequentado por vaqueiros e agregados de fazendas da região. O punhal que fez tombar Valentim, ficaria para sempre cravad0 na alma de Nininha...De lá para cá, Nininha veio murchando de corpo e alma, até que o próprio cérebro começou a murchar e vieram os delírios. Passou a ter um mundo só seu, o qual passou a ser só de ilusões e divagações. Agora que suas filhas já estavam para se casar, e por todo esse tempo Nininha fora tão mãe quanto ela, como abandoná-la naquela situação? À mercê da sorte e da molecada, que já iniciava a chacotear Nininha, aos domingos, quando cruzava a pracinha da matriz para assistir à missa. Assim, quando resolveram deixar o cariri, Nininha foi a primeira a subir no pau de arara.- Minha mãe entendia agora, o porquê de tanta paciência dela para com essa criatura-? Agora o que lhe restava era ser babá da pobrezinha como ela fora das filhas, até que chegasse o dia em Nininha partiria para sempre. Seria esse o seu modo de retribuir tanto zelo pelo seu bem mais precioso. Ademais, Dinorah e Ieda, apesar de às vezes perderem a calma com Nininha, nutriam grande carinho por ela... Haviam se apegado a ela como se fosse a própria mãe. Haveriam de continuar assim, até que se casassem e fossem para São Paulo com os respectivos noivos e pronto. Sentiriam saudades daquela que agora lhes enchia a paciência... ----

   -Ieda, Ieda!- gritava Nininha- pra que vale essa sua leitura se não pode me dizer como que esses homens ficam pequenininhos a ponto de caberem aqui dentro dessa caixa, Ieda-?  E Ieda ,desesperada por ouvir pela milésima vez a mesma pergunta ,responde : -Nininha, já li pra você “Alice No País das Maravilhas”, certo? Eles fazem como Alice. Encolhem-se a ponto de poderem passar pelos orifícios da caixa de som do rádio, satisfeita-? Segundo me contava às escondidas, sussurrando baixinho no meu ouvido, os homenzinhos do rádio é que levavam noticias dela para o seu povo de Aracaju e traziam de volta as notícias do povo de lá. Avisavam até quando ia chover naquela terrinha de meu Deus do céu e quase que choravam com ela quando falavam sobre a seca que torrava o seu torrão natal...Sim. Aqueles homens eram bons. Eles eram uns anjos de Deus, que tinham conseguido ficar bem piquititinhos como dissera Ieda no seu livro de gravuras! Pequenininhos como a menina Alice que passou por debaixo da porta... E então Nininha colocava-se em pé por sobre a primeira cadeira que encontrava e punha-se a mandar recados para o seu povo que ficara em Aracaju. Nininha!- gritava Dinorah- desce já dessa cadeira, Nininha!- e Nininha:- Naná, Naná, se vocês a morrerem de preguiça não escrevem minhas cartas menina... Me deixem mandar as novas pro meu povo, ora-! Na verdade, o seu povo era tão imaginário quanto os homenzinhos que moravam no rádio, pois Nininha vivia só desde que nascera, uma vez que era filha única de uma mãe já falecida, a velha Marião, que morrera com as meninas dos olhos cozidas pelo ferro de passar à brasa, conforme contara Dona branca, sua patroa, à minha mãe,deixando a menina órfã com poucos dias de vida... Quanto ao pai não sabia até hoje quem era, restando lhe somente a sua velha avó, falecida também pouco tempo depois que Nininha enxergou a luz deste mundo,talvez pela dor da morte da única filha...Desta forma, passou a pobre viver de déu em déu como judeu errante, como ela mesma dizia, até que bateu à porta mais certa da sua vida. Isto é, na casa dos pais de Dinorah e Ieda, que nessa época eram muito meninas e a mãe por trabalhar numa confecção local, andava precisando de alguém que lhes servisse de ama e Nininha viera mesmo a calhar.
     -Atenção, seu Valdir Vieira-, gritava Nininha empoleirada na cadeira- Eu sei que o senhor está me ouvindo... Mande lembranças ao meu compadre Antônio lá na rua nova esperança em Aracaju... Diga à minha comadre Celeste que nesse mês vindouro, com fé em Deus eu volto pra lá-! À hora da voz do Brasil, era que seu Riva, como era chamado por todos, verdadeiramente provava ser um homem de paciência, que optara por aceitar a e até se divertir com os delírios de Nininha, pois era a sua hora preferida de mandar e pedir noticia das suas amigas carolas e à sua parentela imaginária. -Dinorah, corre, cá, Dinorah-! O homenzinho do rádio quer uma caneca de café-! Resoluta, vai Dinorah à cozinha satisfazer o desejo de Nininha e volta com a bendita caneca de café, que na verdade era sorvida mesmo pela própria Nininha, quando lapsos de lucidez lhe acudiam a mente e ela voltava ao mundo real, se esquecendo por instantes dos seus homenzinhos...Mas eis que de repente, lá estava ela com mais um dos seus delírios. Então a situação se fazia mais linda para mim, que embevecida, queria concordar mesmo com Nininha... os homenzinhos moravam ali naquela maravilhosa caixinha.

    Ieda e Dinorah estavam a confabular algo que fugia ao entendimento daquela velha menina... As duas não se cansavam de tagarelar pela casa:- Ieda, - dizia Dinorah, - o que será da gente quando o pai conseguir comprar a televisão? Acorrentamos Nininha? Ou vamos prendê-la no quarto escuro dos fundos-? E Ieda ria a não poder mais, risadas essas que me doíam na alma. Elas estavam com certeza, pensando na perspectiva da compra da tv, onde Nininha certamente, no auge da sua loucura, tentaria quebrar a tela para abraçar os homenzinhos, que ela agora não só ouviria, mas veria ao vivo em branco e preto. E foi assim, que naquele verão de 1971 adentrou àquela casa a primeira tv da rua das amoreiras.  No começo, Dinorah que dizia em tom de mofa querer acorrentar Nininha, mudou de ideia e junto a Ieda encontrou uma solução menos dolorosa: Comprariam uma proteção de acrílico daquelas que simulavam cores nas tv branco e preto, para protegerem a tela e a sua grande novidade da euforia de Nininha...
    Era a estreia da novela Cavalo de Aço e depois de uma longa reunião, uma expectativa dos infernos e toda a vizinhança em frente à casa como se ali houvesse um funeral, ouviu- se o sonoro clic de um cavalar botão chamado liga/desliga e outro estrondo de mais um botão chamado seletor de canais e logo após o outro baque: Era Nininha estatelada no chão, pois na ânsia de ver pela primeira vez uma tv sendo ligada, a família esqueceu-se de que Nininha havia novamente se empoleirado numa cadeira para ver de perto o grande acontecimento, uma vez que a tv ficava no móvel mais alto da sala de estar, um antigo armário de fórmica, para assim ficar ao alcance somente do pai, amo e senhor daqueles ansiosos telespectadores, já que só ele e tão somente ele poderia tocar aquele maravilhoso invento. Dessa forma, cresceu a alegria de Nininha, pois não só podia falar, mas tocar os homens e as mulheres .  E assim, com tal advento, encostaram a um canto a casinha pequenina onde moravam os homenzinhos que levavam e traziam para o dia a dia de Nininha as boas novas da querida e distante Aracaju. Mas o misterioso rádio não sai da cabeça de Nininha...Um dia haveria de encontrar aqueles homenzinho que viviam presos ali... E haveria de apertar as mãos desses santos que passavam a vida lá dentro, só mandando e recebendo noticias...    Não era justo que ficassem presos ali dia e noite... Não raras vezes, Nininha, se voltava para Dinorah, para desespero da coitada e dizia sentir saudades do seu Valdir Vieira, do seu Roberto Barreiros. Com aquela geringonça que mostrava mesmo a cara de outros homens e mulheres, o que seria dos seus homenzinhos? Calados, deixados num canto, ao deus-dará, lá na cabeceira da cama do seu Riva, só eram lembrado por ele nas suas madrugadas.  Nessas horas, movida de íntima compaixão, Dinorah se embrenhava pelo mundo fantástico de Nininha e explicava-lhe que os dois não haviam gostado da nova casa e resolveram ficar na antiga casinha de madeira. Algumas vezes, ligava o velho aparelho por algum tempo, para alegria de Nininha. Mas ela continuava e continuava a sentir saudades dos homenzinhos... Haveria de encontrar um jeito de falar novamente com eles todos os dias e enviar e receber noticia como sempre fizera...
   E foi assim, que numa manhã de sábado, ao voltar da feira, um trec trec vindo do quarto de Nininha, surpreende dona Branca, que mais que depressa corre ao cantinho de Nininha e logo depois um grito corta o ar:- corre aqui, Dinorah-! (sempre a pobre da Dinorah)- Fale, mãe- e não me diga que são novas travessuras de Nininha que já não me aguento nem a suporto-! -Dinorah, filha vá o quarto de Nininha e veja com seus próprios olhos-... Resignada, já até cantarolando baixinho “Jesus alegria dos homens” pra não explodir, segue Dinorah em direção ao quartinho dos fundos onde Nininha passa as sua noites a divagar. Valha-me Nossa Senhora do Perpétuo Socorro! –Niniiiiiiiiiiiiiinha-! Explode Dinorah...-enlouqueceu de vez, Nininha-?E Nininha com a cara mais ingênua desse mundo:-Não, Naná!-não enlouqueci...Só queria mesmo era dar de comer ao seu Valdir Vieira e seu Roberto Barreiros, mas acho que eles já se mudaram...Não encontrei mais ninguém-... Ao seu lado uma chave de fendas, um martelo, um copo d’água e muita, muita galinha ensopada que sobrara do jantar da noite anterior...E era uma vez um rádio de estimação e era uma vez para sempre o tico de lucidez que sobrara à Nininha ...

Agnes Flores