terça-feira, 20 de outubro de 2015

JOÃO-NINGUÉM



João mora na rua
sem saída.
(Ele nunca sai de lá).  

Voltar pro Ceará,
terra querida,
queria, muito mesmo,
mas não dá. . .

João não acredita. . .
Só duvida.
Cada vez mais, se endivida.
Nunca tem com que pagar. . .

João, sem ganha pão,
não tem guarida.
João está na mão. . .
Não tem lugar.              

Saudades das jangadas
e do mar
(e amargura)
é tudo o que ele tem.

 João não tem,
não tem á quem amar. . .
Procura sem achar
quem queira bem. . .

Sonhou se libertar,
virou refém. . .
do vício, da cidade,
do penar. . .

Encheu-se de pecados
 pra pagar. . .
Tá com os dias contados.
Sem perdão.

João caiu no beco
sem saída
com cinco balas (perdidas)
dentro do seu coração. . .

O bairro veio ver. . .
Ninguém veio chorar. . .
Ninguém veio sofrer. . .
Ninguém veio rezar. . .

João ficou.
(Não veio pra ficar).
João se foi.
João chegou além.

João penou,
sofreu
e nem viveu...

João nasceu,
morreu
João- Ninguém.


PAULO MIRANDA BARRETO

Fotografia: “Homeless portraits” by Lee Jefries

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