domingo, 6 de setembro de 2015

Meu livro e minha dor...

Eu estava praticamente acabado, na cama, doente depressivamente... meses antes estive na casa de minha amiga Thainan, a protagonista do livro, era seu aniversário e por não ter um presente para dar a ela, ofereci-lhe a capa do próximo livro que escrevesse. Ela ficou muito contente, pois nem eu nem ela jamais tínhamos ouvido falar que alguém ganhara um presente assim. Na verdade, eu ainda não tinha planos para um novo livro, tudo dependeria se eu escrevesse algo um dia.

Logo que adoeci quase ao extremo, coisas absurdas começaram a invadir minha mente. Meus pensamentos eram sombrios em relação a minha pessoa. Comecei a relembrar coisas ruins que havia feito na vida quando era jovem, nos caminhos tortos, nos sonhos não conquistados, nos problemas com meu emprego, tristeza que sempre dei à família, parentes que eu já nem visitava mais, amigos cuja imagem era a minha refletida num espelho, mentirosos, viciados, hipócritas... e meus filhos longe de mim.

Toda vez que me sentia frágil, caia de cama e me entregava ao desespero. Chorava, grunhia, falava sozinho, ria de mim mesmo.
Psiquiatras e psicólogos já não me valiam nada. Era sempre a mesma coisa, perguntas sem sentidos, sem rumo, sem direção alguma. Remédios e mais remédios... só remédios. Eles me drogavam o tempo todo e ainda queriam, e querem, que eu melhorasse a saúde.

Muitas pessoas sabendo de meu estado, tentaram me levar para igrejas, centros espíritas e outros lugares com a boa intenção de me ajudar, mas eu sempre acabava numa psiquiatria de um hospital. Quando algum religioso se aproximava, logo eu sentia que não ia gostar de ouvir o que me falaria, dito e feito, "Irmão, não deixe o demônio tomar conta de sua vida. Ele vai te destruir.", e eu sem paciência, tentava me esquivar, mas parecia ser impossível. Algumas vezes até aceitei ir a uma igreja evangélica, outras fui em centros Kardecistas, mas dentro de mim havia algo que não me era possível controlar, a descrença.

Céu, inferno, purgatório, umbral... quem estava certo? Olho por olho, perdão... tanta coisa me abalava a alma, (se é que eu acreditasse mesmo nisso.), que a única saída que eu via era me esconder do mundo.

Sim, eu estava lá, na cama, caído e chorando muito. Chegara o grande momento. Dessa vez eu não falharia como acontecera das outras vezes. Seria fatal e indolor... se doesse, seria rápido. Resolvi escrever algo para me despedir de tudo e de todos. Pus-me ao computador e meus dedos digitavam como se eu não tivesse controle. Quando percebi o que estava fazendo, já estava bem além de uma simples despedida, eu havia começado uma história... relembrando minha vida triste desde a infância quando eu nem sabia o que sofria, pois para mim, era tudo felicidades na época. Comecei a lembrar de muita coisa desde a morte de meu pai, quando eu ainda não sabia o que era morte. "Seu pai tá dormindo, Paulinho.", disse minha avó quando lhe perguntei o que havia acontecido com ele. Minhas lembranças passaram pelos dias, meses e anos em que fui um menor delinquente. Casamento, filhos, bebedeiras... de repente, o que me veio a mente foi a minha amiga Thainan. Comecei a ter uma forte impressão de que já nos conhecíamos de outros lugares, mas isso me fugia um pouco da razão devido eu a conhecer desde criança e não seria possível eu a ter visto em outro lugar de forma adulta. O interessante em tudo isso é que eu tinha lembranças, (sonhos, visões ou pensamentos fixos...), onde ela era minha filha amada, e isso foi o que me impediu de levar adiante a paixão que nutria por ela. Eu jamais me sentiria bem se tentasse algo acreditando que ela fora minha filha um dia. Mesmo que eu não acreditasse, preferi não a incomodar com tais sentimentos de homem para mulher, pois dei mais valor para sua amizade e isso me valeu a pena, hoje ela é muito feliz com alguém que eu cheguei a ter uma outra forte impressão, eu seria filho dela um dia e se seu atual companheiro estiver ao seu lado, será meu pai..  Quando tais sensações começaram a ficar cada vez mais forte, resolvi escrever junto com as lembranças escritas antes. E assim foi gerando um livro que durante trinta e oito dias eu digitei todas as noites ouvindo "Ave Maria" de Schubert.

Tais coisas acontecidas comigo só me deixava cada vez mais doente. Eu vivia me perguntando: "Cadê Deus?" "Onde Ele está quando preciso?" E os que me falavam de Deus, de amor, paz, alegria, perdão, na verdade não me mostravam nada disso... eram todos de má atitudes. Toda vez que vinham me falar de Deus, era sempre a mesma coisa, "Não deixe o demônio tomar conta de sua vida, irmão.", "Olha, quando eu não tinha Jesus no coração, eu não tinha nada. Não tinha casa, carro, mulher, dinheiro no banco...".

Cheguei a tal ponto de não me sentir bem toda vez que um religioso se aproximava, católicos, evangélicos, espíritas, budistas... para mim eram todos iguais... mentirosos, espertalhões, hipócritas...

Meu conflito com Deus me enlouquecia. Nunca aceitei a morte, e talvez por isso eu sempre ia parar em uma ala psiquiátrica toda vez que um ente querido morria. Geralmente eu adoecia antes do ocorrido, sentia-me abalado, ansioso, triste, sem fome, sem sede... e logo em seguida, dois ou três meses, morria alguém que eu gostava muito. Toda vez acontecia isso. Comecei a prestar mais atenção.

Eu nunca tive a certeza da existência de Deus e não queria ter, e ainda tenho minhas dúvidas. Mesmo assim escrevi um livro onde parece que eu o idolatro, "hipócrita".

Não foi hipocrisia quando em 1998 (?), dois dias antes do natal, saí de casa as 03:30 da manhã rumo a Cidade de Aparecida do Norte com a intenção de pagar uma promessa para curar a dor de cabeça de minha ex-namorada Vera Lúcia. Devido uma operação, passou a ter dor crônica. Eu não acreditava em milagres, mas ela e toda sua família acreditavam, e foi por ela que eu me aventurei.  Passei por momentos de desespero no caminho quando acabou a comida, dinheiro, água e o cigarro. Tal aventura eu narro por inteira no livro.

Boa parte de minha vida fora acometida por uma depressão irresistível. Lembro de uma noite, duas horas da madrugada, quando eu estava muito doente e havia decidido terminar com tudo. Tentei me levantar mas não conseguia, pois meu corpo pesava muito. Comecei a sentir dores no corpo e muita falta de ar. Cheguei a pensar que estava morrendo ali na cama. Uma tristeza enorme me acometeu e comecei a chorar, eu queria acabar com tudo. De repente, por baixo do cobertor, ouvi duas vozes estranhas. Eu não conhecia aquelas vozes. Duvidei que fosse alguém me visitando, amigas de minha mãe, já era tarde. Descobri o rosto e vi duas senhoras vestidas de branco ao lado de minha cama. Elas tinham o semblante dócil, um leve sorriso no canto da boca e uma voz suave. Suas roupas eram brancas e o quarto parecia estar azulado, pois dormimos com as luzes apagadas. Minha mãe dormia em sua cama, moramos apenas eu e ela.Tentei falar alguma coisa querendo saber quem eram mas não conseguia falar. Uma delas, a que estava do lado direito, disse: "Ele está muito mal, vamos fazer uma prece.". E quando começaram a prece, não vi mais nada. No dia seguinte, acordei mais disposto, sem dores no corpo, com fome, com sede e vontade de caminhar...

Não sei porque escrevi o livro. Não sei porque acredito ser ateu. Não sei porque uma pergunta me fascina tanto que eu insisto em me perguntar como se perguntasse a outra pessoa. "O rio, sobe ou desce?". Parece que já fiz tal pergunta no passado encarnatorio, e tive uma resposta. Mas, ainda tendo quase a certeza de que sei a resposta, continuo me perguntando: "O rio, sobe ou desce?".

Talvez o ato de escrever o livro tenha salvado minha vida, ou me condenado a viver eternamente doente, ouvindo vozes, vendo gente que outros não veem e... que a vida siga em frente.