domingo, 27 de setembro de 2015

Felicidade ll


Esse conto foi adaptado para o livro "Eu te amo, papai"

Queria tanto ser criança novamente. 
Quando eu era criança, eu brincava de bola no campinho, caçava passarinhos e depois os soltava, pois eu morria de dó deles... Nadava nas lagoas, tomava banho na chuva... e namorava a Eliete. Ela parecia uma índia com aqueles cabelos negros e compridos. 
Tinha os dentinhos encavalados, e seus olhos eram negros e grandes... Éramos namorados, e todo mundo sabia disso. Não tínhamos vergonha de nada. 
Nas festas juninas era ela quem me pintava o bigode e as costeletas, e só não ajeitava meu chapéu de palha porque eu nunca tive um. 
Certa vez ela arrancou as tranças loiras de seu chapéu e o colocou em mim. Todo mundo riu, pois ela esquecera de tirar a fita de renda rosa que envolvia a parte que se encaixava na cabeça, precisava ver a carinha dela me olhando como se pedisse desculpas.
Quando chovia tomávamos banho na chuva. E ríamos muito de nossas peraltices. Quando nos viam de mãos dadas e sujos de lama, vixemaria, mais falavam, falavam e falavam.
Ou a Eliete era feliz ou era besta, pois vivia rindo. 
Eu era o tipo de menino que apanhava de qualquer um na rua, mas na hora de mostrar coragem pra ela, nossa, num tinha quem me segurasse.
Eu era capaz de qualquer coisa pra agradá-la. Eu entrava no pântano com a água quase me cobrindo, mesmo não sabendo nadar, na verdade mesmo quando eu entrava no pântano era somente na parte rasa. 
Enfrentava cobras, gato-do-mato, que na verdade era o gato da vizinha que eu tinha jogado pedra uma vez e ele deve ter ficado com muita raiva de mim a ponto de me perseguir sempre que me via. 
Certa vez, pra não passar vergonha na frente dela, enfrentei o River, um rival. Ele também gostava dela e vivia me desafiando só pra mostrar pra ela que eu não a merecia e sim ele era o cara perfeito. Coitado. Apanhou ele e o Carlinhos, irmão caçula dele. Naquele dia eu descobri que também sabia bater. 
Ela ria, ria, ria.. um sorriso doce, puro, inocente... e eu com o peito estufado, e respiração presa pra não murchar os músculos, olhava pra ela como se fosse um herói de guerra voltando pra sua amada.
Ela ria, e o brilho em seus olhos dizia tudo...

25/11/2009