sábado, 6 de fevereiro de 2016

Até que a tragédia os separem

Fonte da imagem: Google


_Sua porca, você não vale nada!
João estava nervoso e gritava muito com sua esposa, Dona. Ângela.
Dona. Ângela era uma mulher sofrida e doente. Quando criança, era feliz. Podia roubar frutas na chácara do Seu Juca, brincava com os meninos e batia neles também. Ao se transformar em um mocinha, os rapazes não a deixavam em paz. Ela era muito requisitada para ir aos bailes e aos lugares escurinhos.
Ângela tinha uma pele bonita, escura e quase avermelhada. Sua boca,sempre aberta e úmida. Joãozinho chegou a bater em três moleques por causa dela. E ela, é claro, ficou com ele. Qual a mulher que não queria ter ao seu lado um homem bravo e destemido? Ela queria um homem assim, e conseguiu. Casaram-se, mas não tiveram filhos, João era estéril.

Em uma noite como todas as outras, João chegou bêbado em casa. Xingava e quebrava tudo o que via em sua frente. E quando não via mais nada que pudesse quebrar, batia no rosto de Dona Ângela
_Sua gorda ridícula, quem você pensa que é?
Dna. Ângela não falava nada e sua calma o irritava ainda mais.
_Sua sonsa, cadê o meu café? E vê se não faz café amargo se não eu faço você engolir tudo, tá ouvindo caralho?

Deitado no sofá da sala, João ficava pensando em coisas estranhas. Como sua mulher, tão bela e tão doce foi se transformar em um traste daquele? Ela engordara muito, já não se cuidava mais, escarrava na sua frente e na frente das outras pessoas. Até parecia que não escovava mais os dentes. Quando ela abria a boca era possível ver restos de comida entre seus dentes. E as músicas que ela ouvia? Sua esposa além de ser gorda e porca, era brega também...

Dona Ângela colocou água para ferver. Pegou o pó de café, açúcar, deu uma passadinha de água no coador que ela mesma havia costurado e colocou no bule que ela havia desamassado. Ainda bem que deu para recuperá-lo. Quando seu marido o amassou, parecia quase impossível utiliza-lo novamente.

João ainda estava pensando na desgraça de sua vida. Queria ter um filho e não podia ter. Queria ter uma mulher bonita e acabou se casando com uma praga de mulher. Célia sim era mulher de verdade, uma verdadeira dama na cama. Quando eles se encontravam, tudo acontecia...

Dona. Ângela, sempre dedicada, nunca fora infiel ao seu marido, apesar de passar por muitas tentações. Como por exemplo, o simpático e atraente amigo de João. Quando ele aparecia aos domingos para almoçar, sempre de camisa aberta, mostrando seu peito musculoso e peludo, Seu jeito de olhar bem nos olhos quando falava de amor, de novelas e de outras coisas que as mulheres gostam. Certa vez, Isaías apareceu, Não era domingo e muito menos hora do almoço.
_O que o trás aqui Seu Isaías? Perguntou Dna. Ângela.
_Vim vê-la, menina...
Menina! Há quanto tempo não ouvia alguém chamando-a assim...
_Me ver?
_Sim, te ver!
E aproximando-se dela, tentou abraça-la. Ela se assustou e gritou com ele.
_Pare com isso, Seu Isaías, pare com isso!
_Por quê? Retrucou ele.
_Não sou o que o senhor tá pensando.
_Sei que não, mas não estou aguentando mais, estou apaixonado!
_Não pode ser. Diz ela. _Gosto de meu marido, não o trairei nunca!
_Mentira, vocês não se amam, eu vejo como ele a trata. Para ele você não é nada!
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Dna Ângela.
_Vá embora ou eu contarei tudo ao meu marido.
_Tudo bem, mas você vai se arrepender quando sentir falta de sexo.
Um tapa marcou a face esquerda do homem que saiu da casa morrendo de raiva.

João estava quase dormindo, esqueceu do café. Quando adormeceu sentiu uma boca beijando a sua. Ao abrir os olhos, viu Célia, linda e nua em sua frentre. Eles se beijaram e fizeram amor. De repente, ele acordou: era apenas um sonho. Deitou-se novamente e tentou dormir com esperanças de continuar sonhando.

Dona. Ângela despejou a água quente no pó de café e coou apenas a quantia necessária para um copo. Pegou o veneno de rato que estava guardado no fundo do armário, junto com os alimentos e colocou uma boa quantidade no café. Misturou bem e deixou em cima da mesa. Havia sobrado muita água quente. Ela deixou a água ferver bastante e desligou o fogo.

João não conseguia dormir. Que azar, não iria mais conseguir continuar com o sonho...
Dona. Ângela chegou até a porta da sala, olhou para o marido e, com um único gesto despejou toda a água fervendo em seu rosto.

A água fervendo penetrou pelos ouvidos, pela boca e pelo nariz do homem. João gritou e ao tentar se levantar do sofá, caiu no chão como o rosto totalmente desfigurado, sangrando muito. João morreu ali mesmo no chão da sala.

Dona Ângela olhou para João com um olhar triste e pensativo. "Poderia ter sido diferente meu amor", pensou ela,"mas você não quis".
Andando devagar em direção à cozinha, ela jogou a chaleira vazia e ainda quente na pequena pia. Pegou o copo com café misturado ao veneno de rato e tomou tudo em um só gole. Caiu e sua morte foi mais dolorida do que a de seu esposo...


Obs.: Este conto faz parte do primeiro livro, solo, de contos "A tragédia dos mentirosos", lançado em 1999 pela Physis.Editora. Em 1999 o autor Pauinho Dhi Andrade assinava com o pseudônimo de Paulinho Bomfim.


21/05/2007
Paulinho Dhi Andrade