sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Foi assim que te conquistei...

Fonte da imagem: Google

















Poderia até ser um simples aceno de mão não fosse a insistência no olhar. Abraçada aos livros, que me causavam ciúmes por estarem acomodados à maciez de algo tão desejado por mim, deixava seus cabelos negros mesclarem-se ao sorriso ingênuo e ao mesmo tempo promiscuo. Suas unhas vermelhas davam brilho às suas mãos roseadas pelo frio. 
Seu olhar insistente despertou-me a coragem de assumir perante meu próprio medo à vontade de lhe pertencer. Pus-me a seu lado de forma tímida com um versinho rabiscado num papelzinho de pão e sorri como se lhe pedisse a atenção. Escondeu a boca por trás do livro, como se temesse minha reprovação por ter pintado a carne, e apertou seus olhinhos que eram grandes e negros. Ao jorrar seus lábios para a frente dos livros vi que eram grossos, desses que prometem beijos à distância, e tinha cor vermelha, como se fosse uma flor tímida diante de um beija-flor.
Após ler o versinho, "_Amo-te por toda a vida!", sorriu e guardou o mesmo dentro do sutiã.
Quando começou a andar, perguntei-lhe:
"_Quer namorar comigo?".
Ela balançou a cabeça como se dissesse sim e sorriu.


_Ah vô, conta outra vai. Foi assim mesmo que cê conquistou a vó? Tá muito romântico pro meu gosto!
_Foi assim mesmo! Se ela estivesse viva ainda hoje não deixaria dúvidas.

Dizendo isso, o velho fechou o álbum de fotografias em preto e branca e disfarçadamente chorou pela última vez, um choro contente, como se já soubesse que era véspera de um reencontro.



Paulinho Dhi Andrade
21/09/2007